Dom Pedro II. Neg. von Braum. Clément & Cia. Paris. Therese Prinzessin von Bayern. Meine Reise in den brasilianischen Tropen. Berlin 1897

BRASIL-EUROPA

REFERENCIAL DE ANÁLISES CULTURAIS DE CONDUÇÃO MUSICOLÓGICA

EM CONTEXTOS, CONEXÕES, RELAÇÕES E PROCESSOS GLOBAIS


Compositor e regente Carlos Criu, mestre da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de S. Paulo e fundador da orquestra de jazz Carlos Cruz de S. Paulo. Acervo A.A.Bispo. Copyright

 
CARLOS CRUZ
1875 - 1948



LADAINHA DE NOSSA SENHORA






PROGRAMA

BICENTENÁRIO DE D. PEDRO II
1825-2025




Ladainha de N. Senhora de Carlos Cruz, mestre da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de S. Paulo. Executada pela primeira vez em concerto em 1973 pelo coro de estudantes do Instituto Musical de S. Paulo.Pesquisas de A.A.Bispo da década de 1960
Jaculatórias de São Miguel de Carlos Cruz, São Paulo. Acervo A.A.Bispo

Antonio Alexandre Bispo


Carlos Cruz, músico e compositor nascido em 1875 em Santos e falecido em São Paulo em 1948, de origem humilde, músico e compositor de música sacra, de música popular, regente de banda e de orquestra de jazz, mestre de grande número de instrumentistas, desempenhou papel de liderança na vida musical em meios sócio-culturais marcados pela presença de descendentes de africanos de São Paulo, capital e cidades do interior, em fins do século XIX e primeira metade do século XX. 


Significado para uma musicologia de orientação sócio-cultural


Carlos Cruz foi objeto de estudos e pesquisas desde a década de 1960 em São Paulo. A partir de 1974, esses estudos tiveram prosseguimento em âmbito internacional. Inseriram-se em projeto brasileiro voltado ao desenvolvimento de uma musicologia orientada segundo processos culturais em contextos globais em cooperações internacionais que passou a ser desenvolvido a partir do Instituto de Musicologia da Universidade de Colonia.


Contexto sócio-cultural de cidade portuária


Ponto de partida de estudos da sua vida, atuação e produção musical é a consideração do contexto de sua formação e primeiros anos de atuação na sua juventude em Santos. Carlos Cruz nasceu e viveu em meio social modesto de trabalhadores da cidade portuária em época marcada pela expansão e florescimento da cultura cafeeira no interior da Província e do escoamento do café através do porto de Santos, facilitado pela ferrovia.


O movimento portuário, a vinda de imigrantes e o desenvolvimento comercial da cidade explicam a intensidade e diversidade da prática musical popular das últimas décadas do século XIX e início do XX. Carlos Cruz, vivenciando desde cedo práticas musicais em ruas e bares, adquiriu formação como cantor em coros de igrejas, em participações de procissões e festas religiosas, assim como em bandas de música, onde aprendeu vários instrumentos. 


Na sua juventude, era conhecido por suas aptidão na execução de vários instrumentos e pelas suas qualidades pessoais, pelo seu temperamento extrovertido e alegre, facilitador de contatos humanos. O início de suas atividades profissionais ter-se-ia dado no convívio com outros músicos numa pensão da rua Conceição, avenida Ana Costa, moradia e ponto de encontros de músicos e de contatos de trabalho. 


Formação no Colégio dos Salesianos de São Paulo


Decisivo para a sua formação foi a sua transferência para São Paulo como aluno do Liceu Sagrado Coração de Jesus, dirigido por Salesianos. Os missionários italianos de Dom Bosco, pela própria história dedicados ao amparo e formação de jovens de meios sociais menos privilegiados e operários, marcaram não só a sua formação religiosa como também musical em época da restauração litúrgico-musical. 


Cantor do coro da antiga Sé de São Paulo e capela de São Miguel


Foi cantor da antiga Sé, participando como baixo em missas e procissões, tomando conhecimento do repertório ali cultivado, de obras de Palestrina e de outros compositores considerados como adequados liturgicamente, e que em parte copiou. Participou não só no coro da Sé como também de igrejas de irmandades. Como instrumentista, cantor e regente atuou na capela de São Miguel, então na rua Bráulio Gomes, posteriormente na rua Taquari.


Ascensão social e consciência de raízes africanas


A atmosfera da cidade em expansão, cosmopolita, assim como o seu empenho de ascensão social e prestígio explicam que se tornasse na juventude conhecido pelo esmêro com que se vestia, pela elegância e refinamento de modos e atitudes. A sua primeira esposa era alemã, Júlia, a segunda, africana. Esse segundo casamento teria contribuído a que se compenetrasse de suas raízes africanas. Essa tomada de consciência expressou-se no fato de fazer questão de ser retratado vestido como soba, em atitudes soberanas, com charuto, embora não fumasse. 


Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo


As suas principais igrejas eram aquelas de irmandades que agregavam sobretudo devotos de ascendência africana, salientando-se aquela do Rosário dos Homens Pretos. Quando da demolição da antiga igreja no Largo do Rosário, passou a dirigir a música em atos de culto na sua sede provisória. Na procissão que levou as imagens para a nova igreja edificada no largo do Paissandú, foi ele que dirigiu a banda que a acompanhou. Desde então passou a ser o regente dessa nova igreja, organizando e dirigindo cantores nos atos religiosos e procissões. A devoção do Rosário tinha sido incentivada pelo Papa Leãp XIII em 1887, contribuindo a uma revalorização da histórica irmandade do Rosário por parte do clero. A nova capela, próxima da igreja de Santa Ifigência, que por décadas abrigou a Sé de São Paulo após a sua demolição e durante a construção da catedral neo-gótica, passou a ser igreja na qual Carlos Cruz, como antigo cantor da Sé, passou a atuar concomitantemente com as suas atividades na Irmandade do Rosário.


Carlos Cruz cantou sob a direção de Veríssimo Glória, muito seu amigo, na igreja do Brás. Liderava grupo de cantores que atuavam em festas religiosas, do qual era constante membro Otacílio Machado, antes que este se transferisse para Limeira, um funcionário dos Correios e cantor que primava em cantar com grande intensidade de voz. Carlos Cruz morou na rua Antonio Carlos, na Brigadeiro Luís Antonio, na rua Conde do Pinhal e na rua Vichy na Casa Verde. Marcou a vida musical de igreja da Casa Verde e manteve estreitos contatos com a Irmandade de São Benedito desse bairro.


Carlos Cruz atuava também na igreja da Boa Morte - quando Curato da Sé - e na igreja do Sagrado Coração de Jesus dos Salesianos onde tinha estudado.


Atuação em outras igrejas, festas religiosas e procissões


Carlos Cruz estava presente nas principais festas das primeiras décadas do século XX em São Paulo. Além da Novena do Rosário e na de São Benedito na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, atuava no Setenário da Festa de Santa Cruz, na igreja de Santo Antonio, em abril/maio, realizado pela Irmandade dos Passos, no Setenário das Dores na igreja da Boa Morte, em agosto, na Novena do Carmo, na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em julho, na Novena dos Remédios na igreja dos Remédios, na Trezena de Santo Antonio, na igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em junho e na festa do Divino na igreja do Divino Espírito Santo na Bela Vista e na do Rosário da Penha, na época de Pentecostes. 


Muito se empenhou na organização de procissões do Enterro de Sexta-Feira Santa da Irmandade do Rosário, constando ter sido ele aquele que desenhou os trajes dos assim-chamados maomés que, como penitentes, acompanhavam a procissão. 


Com a demolição da antiga Sé, Carlos Cruz, como membro do coro, passou a atuar na provisória na igreja de Santa Ifigenia, tendo sido esta a época áurea de sua carreira como músico de igreja. 


Atuação em cidades do interior


Carlos Cruz foi músico de liderança em várias cidades do interior, em particular naquelas comunidades marcadas pela presença de descendentes de africanos. Entre elas, a sua presença era importante em festas de Jundiaí, Capivari e Araras. Em Itu, participava da festa de São Benedito. 


Os seus elos com Itú derivavam do fato da sua segunda mulher, Henriqueta Cruz, ter tido como primeiro marido um renomado tenor daquela cidade. Era sogra do "El Tigre", Arthurf Friedenreich (1892-1969), famoso futebolista nascido em Blumenau, filho de imigrantes alemães e que crescera no bairro da Luz em São Paulo.   


Compositor e arranjador de musica sacra e popular


Além de adaptar e arranjar muitas obras do antigo repertório de música sacra segundo os preceitos do Motu Proprio de Pio X (1903) e as possibilidades da igreja do Rosário, Carlos Cruz compôs grande número de composições sacras. Destacou-se também na esfera da música popular, tornando-se conhecido, entre outras peças, com o seu maxixe Cutuba. 


Músico de jazz - Orquestra Carlos Cruz


Uma especial consideração merece o papel que desempenhou no jazz em São Paulo. Em 1929, fundou o primeiro jazz sinfônico em São Paulo com a sua Orquestra Carlos Cruz. Com ela, apresentava-se em bailes e em bares, ás vezes em três ou quatro por noite. Também apresentava-se em Santos, tendo executado, segundo a tradição, pela primeira vez „A jardineira“ de Orlando Silva (1915-1978) no Clube XV. 


Uma estória transmitida através das décadas conta que uma vez, tendo passado toda a noite tocando jazz com a sua orquestra em estabelecimentos noturnos, e tendo de dirigir a música em missa de Requiem no Rosário, deitou-se ali no caixão aberto, acordando no decorrer da missa, o que causou grande alvoroço na igreja. 


Como músico de jazz, Carlos Cruz era admirado pelas suas improvisações. Essa aptidão também se refletia nas suas execuções no âmbito da música sacra. Procurava assim, por meio de improvisações de cunho jazzístico, enriquecer obras que lhe pareciam demasiadamente inexpressivas, como aquelas da polifonia vocal clássica a cappella, tão admiradas pelas autoridades eclesiásticas. Com essas improvisações, procurava "melhorar" obras em estilo antigo como, entre outras, motetos de Palestrina.


Desenvolvimento dos estudos


Embora silenciado em publicações e ignorado na vida musical de concertos, a memória de Carlos Cruz, de suas composições e suas atuações era ainda viva entre músicos e cantores que atuavam em celebrações e festividades da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo. O contato com esses músicos e cantores, com os seus sucessores, em particular com Edgard Arantes Franco, cantor, regente e pesquisador de tradições religiosas e populares que, embora não afro-descendente, passou a assumir a organização da participação de músicos em atos religiosos e procissões da irmandade. Conservava partituras e documentos vários de Carlos Cruz, materiais que possibilitaram que viesse e à luz uma esfera da vida musical, religiosa e sócio-cultural da cidade por assim dizer submersa, esquecida de  historiadores, intelectuais e artistas.


O descobrimento desse universo músico-cultural foi possibilitado pela participação observante na prática musical em solenidades e festividades de irmandades tradicionais, em particular daquelas do Rosário e de S. Benedito da capital e de cidades do interior. A pesquisa empírica foi acompanhada pela procura e estudo de fontes e informações obtidas em entrevistas. 


Carlos Cruz foi um dos músicos paulistas que mais contribuíram para a tomada de consciência de uma necessária renovação de perspectivas nos estudos culturais e musicais que desencadeararm o movimento Nova Difusão com o seu Centro de Pesquisas em Musicologia. 


Carlos Cruz foi não apenas uma personalidade que mereceu atenção no interesse então despertado para uma Sociologia da Música, mas também para estudos interdisciplinares que procuravam superar visões e procedimentos marcados por delimitações em compartimentos, por áreas e disciplinas categorizadas como eruditas ou populares, por limites de esferas sociais, étnicas, religiosas e culturais e promover um direcionamento da atenção a processos que superam separações e suas interações. Devia-se superar um modo de pensar e agir que, na História da Música, levava pesquisadores a procurar fontes e valorizar apenas documentos que correspondessem à ambição de descobrimento de grandes obras, em geral de obras do passado colonial. Esse foi o sentido da concepção de Nova Difusão, ou seja, a difusão de uma nova mentalidade e novas atitudes e procedimentos.


Primeira execução de composição de Carlos Cruz em concerto


Marcos no desenvolvimento dos estudos foram participações em procissões de Semana Santa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Essa irmandade, assim como igrejas e pontos de encontros de músicos frequentados por Carlos Cruz foram objeto de considerações no curso Música na Evolução Urbana de São Paulo e Etnomusicologia urbana na Faculdade de Música e Educação Musical do Instituto Musical de São Paulo. 


Em 1973, apresentou-se pela primeira vez em concerto a Ladainha de Nossa Senhora de Carlos Cruz em concerto do Coro e Orquestra de Música Sacra Paulista formado no Instituto Musical de São Paulo na igreja de São Cristóvão do antigo Seminário Episcopal. Essa Ladainha tinha feito parte de novenas de irmandades de São Paulo, em particular a do Rosário, assim como de irmandades da cidade de São Carlos.


Carlos Cruz na Etnomusicologia e na Música Sacra na Europa


Lembrado pela passagem do centenário de seu nascimento em 1975, Carlos Cruz despertou particularmente interesse entre etnomusicólogos voltados a estudos culturais africanos e afro-americanos. Entre eles, salientou-se Robert Günther (1929-2015) que, embora dedicando-se sobretudo a estudos da música na África, coordenava projeto editorial dedicado às culturas musicais na América Latina no século XIX. 


Carlos Cruz foi considerado sobretudo pelas suas atividades na esfera da música sacra em ano no qual se celebravam os 450 anos de G. P. da Palestrina. As reflexões e os estudos nessas rememorações limitavam-se não só à época de Palestrina, mas à continuidade de sua presença na história da música sacra através dos séculos. A principal atenção foi dirigida ao movimento restaurativo da música sacra no século XIX, marcado pela idealização e fomento de Palestrina e de uma linguagem musical por ele referenciada. A revisão crítica de concepções e da produção sacro-musical do século XIX e de suas extensões no XX, em particular do Cecilianismo da escola de música sacra de Ratisbona, correspondiam à atualidade do debate de questões concernentes à música sacra em anos marcados por mudanças decorrentes do Concílio Vaticano II. Essa problemática constituía um dos pontos a serem considerados no projeto elaborado em São Paulo em 1974.


Carlos Cruz, como cantor da Sé de São Paulo em décadas marcadas pela recepção de obras de Palestrina e de compositores que por ele se referenciaram, inseriu-se nesse movimento de restauração litúrgico-musical. Copiou motetos de Palestrina em uso na Sé e introduziu-os no repertório da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo, onde passaram a ser cantados em procissões e atos de culto, ainda que por ele executados com improvisações jazzísticas. 


Esse papel desempenhado por Carlos Cruz em meios católicos de afro-descendentes abriu novas perspectivas no debate concernente à recepção de Palestrina e de correntes do restauracionismo eclesiástico, em particular do Cecilianismo, cujo principal centro na Alemanha foi a escola de música sacra de Ratisbona, que então comemorava o seu centenário.


A sua consideração desempenhou papel significativo no desenvolvimento de uma pesquisa musical de orientação culturológica em contextos globais, escopo do projeto elaborado no Brasil e que teve continuidade em eventos do Instituto de Estudos da Cultura Musical no Mundo de Língua Portuguesa (ISMPS) a partir de 1985. Foi tratado desde então sob diversos aspectos em cursos e seminários universitários.

D. Pedro II. Kaiser von Brasilien. Phot. Melsenbach Riffarth München. V. Braun Clément, Paris. Da obra: Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reisen on den Brasilianischen Tropen. Berlin D. Reimer (Erst Vohsen) 1897.

Este texto é extraido da publicação

Antonio Alexandre Bispo. Pedro II 200 Anos. Música em estudos euro-brasileiros do século XIX. Gummersbach: Akademie Brasil-Europa & Institut für Studien der Musikkultur des portugiesischen Sprachraumes e.V.
416 páginas. Ilustrações. (Série Anais Brasil-Europa de Ciências Culturais)
Impressão e distribuição: tredition. Ahrensberg, 225.


ISBN 978-3-384-68111-9


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Pedro II Kaiser von Brasilien. Phot. Melsenbach Riffarth München. V. Braun Clément, Paris. Da obra: Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reisen on den Brasilianischen Tropen. Berlin D. Reimer (Erst Vohsen) 1897.
Druck und Verteilung: Tredition. Ahrensberg