BRASIL-EUROPA
REFERENCIAL DE ANÁLISES CULTURAIS DE CONDUÇÃO MUSICOLÓGICA
EM CONTEXTOS, CONEXÕES, RELAÇÕES E PROCESSOS GLOBAIS
Antonio Alexandre Bispo
Em época marcada pelo bicentenário de Dom Pedro II (1825-1891) surge como oportuno dirigir a atenção à Igreja de Nossa Senhora da Glória no Rio de Janeiro. Nela foi batizado Dom Pedro, assim como outros membros da família imperial brasileira. É igreja da Imperial Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, título concedido por Dom Pedro II em 1839.
Conhecida também como Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro devido à sua situação elevada, a igreja da Glória é um dos marcos históricos e visuais da antiga capital do Brasil. Foi representada em pinturas e fotografias, descrita por viajantes fascinados pela paisagem do Ri,o marcando visual- e mentalmente a imagem do Brasil na Europa.
Entre os registros artísticos, recorda-se a aquarela de Eduard Hildebrand (1818-1868), artista viajante de Danzig, na Prússia, que retratou a igreja da Glória em 1844 em aquarela a partir do mar. Entre os relatos, salienta-se a menção do historiador francês Ferdinand Denis (1798-1890), publicada em tradução alemã anos em 1839, onde descreve a capela a partir do alto, de Santa Teresa, do convento e da vista que dali descortinava:
"Não se pode imaginar um lugar mais imponente e mais atraente para uma vida contemplativa. O edifício não tem muros que o envolvem, a fachada branca sobresai entre os arbustos perfumados de uma cerca viva de um horto. Logo abaixo da ermida de Santa Teresa, no sopé de um promontório, encontra-se um pequeno octógono com uma graciosa área com colunas: é a linda igreja de Nossa Senhora da Gloria, um desses edifícios pitorescos, que pela situação e por vezes na memória de uma cidade oferecem uma fisionomia sorridente ou triste. Era aqui que a jovem Imperatriz gostava de vir rezar, aqui sentou-se mais de uma vez, com os olhos fixos nestas águas calmas, nestas ondas suaves, com a montanha dos Órgãos ao fundo. Quando uma filha lhe nasceu, ela aqui a dedicou à sua protetora. Mais tarde, conta-se que não passava uma semana sem que D. Pedro se ajoelhasse aos degraus do altar." (Geschichte und Beschreibung von Brasilien und Guyana, Stuttgart: C. Schweizerbart’s Verlagshandlung 1834,104). (Trad. A.A.Bispo)
Denis refere-se no seu texto à arquiduquesa austríaca, princesa e a seguir Imperatriz Dona Leopoldina (1797-1826), que ali batizou a sua filha e que significativamente recebeu o nome de Maria da Glória (1819-1853), posteriormente Dona Maria II, rainha de Portugal. Esse significado da igreja de Nossa Senhora da Glória remete a atenção tanto à veneração mariana da Áustria como àquela na família real portuguesa que se transferiu ao Brasil em 1808 e, consequentemente, exige que se considere também o seu significado para Portugal.
A veneração de Nossa Senhora da Glória é uma das expressões do intenso marianismo que marcou a história cultural e nacional portuguesa através dos séculos. Quando da restauração de Portugal emancipado após a época da União Pessoal com a Espanha, Maria, venerada como rainha dos céus com a sua assunção à gloria como primeira dos mortais, foi declarada por Dom João IV (1604-1656) rainha de Portugal, de suas colonia e possessões, o que marcou a história religiosa e cultural do Brasil. Uma de suas expressões é aquela da intensidade do culto mariano no vale do Paraíba, em São Paulo, o que se intensificou no século XIX no culto de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, representada com a coroa de soberana e considerada como padroeira do Brasil. A sua veneração não podia deixar de ter marcado a presença da Princesa Isabel na sua extremada religiosidade quando de suas passagens na região do vale do Paraíba.
A veneração de Maria na Glória é expressão culminante dos mistérios designados como gloriosos que, ao lado dos mistérios gozosos e dolorosos marcaram devoções e a cultura religiosa através dos séculos, sendo constantemente meditados no rosário. Essas concepções e práticas possuem não apenas significado para estudos da religião, mas culturais em geral, antropológicos e sócio-psicológicos, uma vez que fundamentaram e desencadearam desenvolvimentos e dizem respeito a visões e compreensões do mundo e do homem.
Nos estudos da capela da Irmandade de Nossa Senhora da Glória no Brasil, a atenção voltou-se à Irmandade de Nossa Senhora da Glória em Lisboa, criada em 1766, assim como à sua capela que, na sua modéstia arquitetônica e um interior artísticamente configurado, sugere paralelos com aquela do Rio de Janeiro. Lembrando-se que poucos anos antes Lisboa tinha sido abalada pelo terremoto de 1755 que destruiu grande parte da cidade, compreende-se a intensificação dessa veneração mariana como soberana no processo reconstrutivo de Portugal. Pode-se refletir neste contexto sobre a existência de paralelos entre essa situação de Lisboa destruída com aquela da restauração de Portugal do século anterior e aquela do Portugal ameaçado pela invasão francesa que obrigou o retiro da família real ao Brasil no século XIX.
As reflexões não podem deixar de considerar o significado da linguagem visual das concepções nas suas relações com o meio envolvente, com a paisagem. Neste sentido, a atenção se dirige a relações entre baixos e altos, à elevação das águas nos seus sentidos extensos, a colinas, montes e rochas. Esses elos com uma situação elevada, correspondendo a sentidos de elevação às alturas da Assunção, tem a sua correspondência no outeiro em que se situa a igreja da Glória do Rio de Janeiro. Já no século XVII tem-se notícia de uma irmandade da Gloria que, em terreno doado em 1699, angariou meios para a edificação de uma capela que foi consagrada em 1739, e para a qual ter-se-ia empenhado o militar e engenheiro português José Cardoso Ramalho. Significativamente, o material para a sua edificação teria vindo de um morro, o de Nova Sintra, que passou a ser conhecido como "pedreira da Glória".
Essa linguagem visual, marcada pela imagem da elevação das águas e pela situação elevada, tem uma de suas expressões na veneração de Nossa Senhora da Penha de França. Em Lisboa, essa veneração, cuja estória remete a decorrências que, envolvendo um francês, teriam tido lugar em serra na Espanha, teve o seu centro em igreja edificada no alto de uma colina em 1597 e que também precisou ser reconstruída após o terremoto. A consideração dessas proximidades entre a veneração de Nossa Senhora da Glória e da Penha é relevante, uma vez que a tradicional Novena dedicada a Nossa Senhora da Glória também foram cantada em honra de Nossa Senhora da Penha, sendo também assim denominada.
Compreende-se neste contexto o significado que se tem dado a estudos mariológicos de condução teórico-cultural na análise de condicionamentos culturais nos estudos culturais e musicológicos desenvolvidos desde meados da década de 1960 no Brasil e que tiveram continuidade em âmbito internacional a partir de 1974.
Os estudos de Gioacchino Giannini não são de recente data. Giannini foi considerado desde 1965 no âmbito de curso e encontros de História da Música conduzidos então ainda em parte com base na Storia della Musica nel Brasile de Vincenzo Cernicchiar (Milão: Ed. Fratelli Riccioni 1926) no Conservatório Musical Carlos Gomes de São Paulo, antiga Societá Benedetto Marcello. A obra servira também para estudos de história da música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e do Instituto Musical de São Paulo.
As pesquisas desenvolveram-se no âmbito das atividades do Centro de Pesquisas em Musicologia do movimento Nova Difusão e que levaram à procura de fontes em arquivos e acervos particulares de São Paulo, cidades do vale do Paraíba e do Rio de Janeiro. Os estudos partiram da tradicional novena de Nossa Senhora da Penha no bairro paulista marcado pela presença de portugueses e luso-brasileiros. A Novena de Nossa Senhora da Glória de Giannini era conhecida já em meados da década de 1960, tendo sido descoberta em acervos de cidades do vale do Paraíba.
De fundamental importância para o desenvolvimento dos estudos foram os dados levantados por Ayres de Andrade e publicados em 1967 (Francisco Manuel da Silva e seu tempo: 1808-1865: uma fase do passado musical do Rio de Janeiro à luz de novos documentos, 2 vols. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967) Nessa obra, registra-se que Giannini, vindo ao Brasil com companhia lírica em 1846 (Cernicchiaro registra 1844), atuou no Teatro São Pedro de Alcântara, salientando-se como como regente na primeira encenação de Lucrezia Borgia de C. Donizetti (1797-1848). Essa menção traz à consciência o significado da difusão da obra de Donizetti no Brasil, o que teria marcado toda uma época, que poderia ser considerada quase que como "donizettiana", um dos motivos que levou ao despertar de interesse por estudos da recepção de obras do compositor no Brasil.
Permanecendo no Rio de Janeiro, Giannini passou a desenvolver um papel relevante como maestro na vida musical da cidade. Regeu o espetáculo de inauguração do Teatro Provisório, em 1852, quando apresentou-se pela primeira vez a ópera Macbeth de G. Verdi (1913-1901). O seu nome relaciona-se assim também com o início da história da recepção de obras de Verdi no Brasil. Giannini foi maestro que regeu apresentações de cantores e pianistas de renome internacional, a da estréia de Rosine Stoltz (1815-1903) e de concertos de Sigismund Thalberg (1812-1871).
Os estudos da vida e obra de Giannini no Rio de Janeiro não podem ser conduzidos sem a consideração de Francisco Manuel da Silva (1795-1865) apesar da diferença de ambos quanto a origens e trajetórias de vida: de um lado um estrangeiro que veio como regente de óperas e fixou-se no Brasil, de outro um brasileiro de nascença que vivenciara a época da família real no Brasil, o I Império, os anos difíceis mas marcados por anelos de defesa da independência e expectativas que se seguiram à Abdicação, assim como a declaração da Maioridade e a Coroação.
As pesquisas possibilitaram o levantamento de manuscritos da Novena de Nossa Senhora da Glória de Giannini que tinham pertencido a Elias Antonio da Silva, cantor falsetista admitido na Capela Real à época do Reino Unido, em 1817, ali atuando até 1839 (Ayres de Andrade, op.cit.229). Fora um dos cantores que tinham sido mantidos após a extinção da orquestra em junho de 1931 (op.cit. 164). Elias Antonio da Silva as teria adquirido já em idade avançada, após as suas atividades na Capela Imperial, encerradas antes da chegada de Giannini, fazendo assim supor que tivesse continuado a cantar em solenidades da Glória após a sua saída da Capela Imperial. Isso significa também que nas Novenas da Glória a parte do soprano era executada por falsetistas.
Francisco Manuel da Silva foi ao lado de Fortunato Massiotti/Mazziotti (1782-1855) promotor da reinstitucionalização da orquestra na Capela Imperial que havia sido extinta por motivos econômicos em 1831. O principal argumento foi o de uma "paixão pela música" de D. Pedro II, que desejava que o culto fosse celebrado com a dignidade devida ao esplendor do culto divino.
Apesar das diferenças de origens e de trajetórias de vida entre G. Giannini, Francisco Manuel da Silva, e Fortunato Massiotti, aproximam-se sob o aspeco dos elos musicais entre Portugal e a península itálica. Exigem porém diferenciações quanto a contextos geo-político-culturais, epocais e estilísticos. A música en Portugal, em especial também no Seminário da Patriarcal, era estreitamente relacionada com aquela de Nápoles e Duas Sicílias. Nessa tradição formaram-se religiosos e músicos que atuaram no Brasil. Entre estes, o principal foi Marcos Portugal (1762-1830), compositor de renome internacional que se transferiu ao Brasil, onde ficou e onde veio a falecer, personalidade que merece a mais atenta consideração pelo papel relevante que desempenhou à época do Reino Unido e dos anos que se seguiram à Independência. O seu irmão, Simão Vitorino Portugal (1774-1842), foi sucedido por Francisco Manuel da Silva na Capela Imperial.
Correspondendo à orientação do movimento Nova Difusão, a atenção foi dirigida à inserção de Giannini em processos histórico-culturais em contextos globais e à difusão de sua obra. Os estudos voltaram-se sobretudo aos contextos e desenvolvimentos políticos e culturais itálicos nas suas relações com o Brasil. Nessas considerações, lembrou-se sobretudo do fato de ter o Brasil uma imperatriz nascida em Nápoles, Dona Teresa Cristina (1822-1889), assim como o casamento da Princesa Dona. Januária (1822-1901) com Luigi di Borbone (1845–1909), o Conde d’Aquila. Cedo tomou-se consciência, porém, que Giannini deve ser considerado antes a partir de outras constelações político-culturais e outros centros musicais itálicos que, no decorrer de processos históricos, passaram a ter crescente significado. Esse direcionamento da atenção favoreceu a explicação das diferenças estilísticas constatadas em obras de Giannin em comparação com aquelas de Francisco Manuel e Fortunato Massiotti.
É significativo que Cernicchiaro trate de Gioacchino Giannini no seu capítulo dedicado a institutos, conservatórios e escolas de música no Brasil. Salienta, assim, o papel de Giannini como professor e mentor É sob este aspecto e relativamente aos efeitos de seu ensino em discípulos brasileiros que deve ser sobretudo considerado. Teve a sua capacidade reconhecida por Francisco Manuel da Silva, a principal personalidade das primeiras décadas do II império no Brasil, tanto na esfera sacro-musical como mestre-de-capela da Capela Imperial como na secular pelas suas iniciativas e seus apoios de sociedades e instituições, sobretudo pelo seu empenho na fundação do Conservatório de Música. Nele, Giannini tornou-se professor de matérias téoricas, a de harmonia (regras de acompanhar), órgão e contraponto.Giannini merece ser assim considerado com atenção nos estudos musicológicos voltados ao ensino teórico-musical no Brasil nas suas relações com desenvolvimentos teóricos na Europa.
A realização de estudos da Novena da Glória sob o aspecto da veneração de Nossa Senhora da Glória em Lisboa foi um dos pontos do programa de ciclo de estudos luso-brasileiros realizado em janeiro de 1974 em Portugal pela Faculdade de Música e Educação Musical/Artística do Instituto Musical de São Paulo.
A partir de 1975, o programa de desenvolvimento de uma musicologia orientada segundo processos em contextos globais foi sediado no Instituto de Musicologia da Universidade de Colonia, sendo a consideração de Giannini favorecida pela então atualidade de estudos do século XIX, de música sacra e de relações ítalo-alemãs na pesquisa musicológica. Encontrava-se em desenvolvimento um projeto editorial dedicado às culturas musicais da América Latina no século XIX, um projeto interdisciplinar conduzido na área da Etnomusicologia e que agregava vários pesquisadores da Europa e das Américas. Um dos aspectos então considerados disse respeito à imigração italiana,
A atenção a Giannini foi sobretudo despertada pelo interesse que então havia pela intensificação de estudos musicológicos referentes á Itália e à cooperação com musicólogos italianos. Já em março de 1975 realizaram-se estudos em várias cidades italianas, o que teve prosseguimento em 1976 e nos anos seguintes. Um dos motivos desses trabalhos foi a comemoração dos 50 anos da Storia della Musica nel Brasile de V. Cernicchiaro, no âmbito dos quais procurou-se levantar fontes e estudar contextos referentes aos músicos italianos mencionados nessa publicação, assim como o de brasileiros que realizaram estudos e atuaram na Itália.
Giannini estabeleceu ou intensificou pontes entre a Toscana e o Brasil, foi um mediador entre Lucca, centro de vida musical, cidade de grande número de compositores de projeção, assim como centro religioso marcado pelo marianismo e o Rio de Janeiro. Supõe-se ter sido ele quem motivou Giovanni Pacini (1796-1867), compositor renomado de óperas nascido na Sicília mas de origens familiares na Toscana, a compor uma Cantata Sacra dedicada à família imperial brasileira que, com texto em português, foi executada em concerto do Conservatório Imperial de Música do Rio de Janeiro, em 1857. (Ayres de Andrade, op.cit., 268)
Os processos músico-culturais nos quais Giannini se inscreveu na sua formação em Lucca deve ser levado em consideração quando se trata do papel que desempenhou no Brasil no movimento a favor do canto lírico em português e no qual se distinguiu com a cantata Véspera dos Guararapes (1856) e com a cena lírica Deixai que as crianças venham ter comigo... A batalha dos Guararapes, como conflito da guerra da restauração portuguesa contra a presença holandesa após a emancipação de Portugal, em 1640, correspondeu, embora decorrida séculos antes, a uma situação marcada pela expulsão do invasor estrangeiro que lembraria a da libertação dos territórios itálicos sob Napoleão na restauração que foi de tanto significado para a história de Lucca.
A Novena de Nossa Senhora da Glória de Giannini é obra de extraordinárias proporções e brilho, escrita para coro a quatro vozes com acompanhamento de orquestra, dispondo-se de partes para dois violinos, celo, baixo, flauta, clarineta, trompas e trompetes, oficleide, além de percussão. Se as partes vocais do coro são conduzidas de forma recitada em tratamento silábico do texto sem grandes saltos intervalares, garantindo a compreensão das palavras, o acompanhamento orquestral é dramáticamente elaborado. A sua linguagem musical distingue-se sobretudo pelo tratamento harmônico que difere daquela de composições de músicos brasileiros da época, o que pode explicar o papel desempenhado por Giannini como professor de novas gerações. Uma especial atenção merece a condução dos baixos e o frequente uso de cromatismos. A linguagem musical de Giannini revela-se nessa frequência de conduções cromáticas como avançada para a época.
O Invitatorium, em Allegro, é aberto por escalas cromáticas ascendentes conduzidas alternadamente pelos instrumentos, uma apoteótica entrada que parece sugerir o movimento de elevação de concepções da Assunção de Maria à Glória e que prepara uma entrada majestosa, marcada par figuras pontuadas do Domine ad ajuvandum me festina. As alternâncias tempo e dinâmica acentuam o dramatismo, o que é expresso em frequentes indicações de retardandi e retomadas a tempo. No Invitatorium, o tempo e a dinâmica se arrefece no Gloria Patri et Filio, em piano, retardando-se no Amen.
Segue-se o Veni, em Vivace, marcado por intensa movimentação e contínas repetições de segundas menores em fortíssimo, alternadas por movimentos cromáticos de instrumentos em staccato. Ao Ave Maria, em Allegro e em 3/4 seguem-se jaculatórias e antífonas.
Atenção merece em particular o fato do Ave Maria e das jaculatórias terem texto em português, o que corresponde também à prática de outros compositores brasileiros e ao sentido dessas orações. As jaculatórias, como arremessos impetuosos de orações e implorações a partir de tensões internas daquele que ora, são compreensivelmente entoadas na lingua materna do orante. Esse tratamento revela não só o conhecimento de Giannini da tradição sacro-musical brasileira. Sugere paralelos com práticas do seu contexto natal, como também um empenho pelo idioma do país, o que tem sido até hoje considerado apenas quanto à sua inserção no movimento pela Ópera Nacional e pelas suas composições seculares em português.
A primeira jaculatória, em Larghetto mosso, também em 3/4, é marcada, como em outras obras do gênero, pela interjeição Oh! da frase Oh! Ó mãe amada… o que acentua a emocionalidade da obra, salientada por várias repetições e notas sustentadas com fermatas, assim como pela alternância de pizzicati e arcos. O Gloriosa Virginis, em Andante mosso, é novamente cantado em latim.
A Ladainha, não integrante dos manuscritos levantados, parece ter sido recitada. A segunda jaculatória, em 4/4, com o texto Doce ó Senhora sois gloria, é marcada por um tratamento que corresponde à suavidade das palavras, em Allegro moderato. Marcado por intervenções de figuras escalares, constata-se aqui também a frequência de pizzicati e staccati. Assai moderato é a terceira jaculatória, de texto Louvada enfim seja.
No Veni, salienta-se uma movimentação que é marcada por contínuas repetições em fortíssimo de segundas menores, alternadas por movimentos cromáticos em staccatti. O Ave Maria, em Allegro e em 3/4, entoado pelo coro é seguido pelas jaculatórias e antífonas, das quais a primeira jaculatória, em Larguetto Mosso, também em 3/4, em piano, também é marcada por movimentos cromáticos e pela constante alternância de pizziccati e arcos. Segue-se Ladainha, repetindo-se a jaculatoria. A segunda jaculatória, em 4/4, caracteríza-se por intervenções de figuras escalares dos violoncelos, por fim executadas em staccati. A terceira, em Moderato Mosso é marcada por movimentos em acordes ascendentes e descendentes dos violoncelos e pela alternância de partes em pizziccati e staccati.
A obra é encerrada com um Cantico Final, em português, em Andantino e 6/4. Cantado pela comunidade, provavelmente tradicional, é acompanhado pelos instrumentos.
A Novena de Nossa Sra. da Glória de Giannini foi considerada em encontros, conferências e aulas em institutos de musicologia e de música sacra, na Alemanha e na Itália. Foi apresentada e examinada em colóquios de professores e doutorandos no Instituto de Musicologia de Colonia precedentes a defesa de tese em 1979. Esses estudos suscitaram e fundamentaram a realização do I° Simpósio Internacional Música Sacra e Cultura Brasileira realizado em São Paulo em 1981, no âmbito do qual fundou-se a Sociedade Brasileira de Musicologia. Giannini foi considerado em conferências de história da música no I Fórum Alemanha-Brasil de Música e Educação Musical em 1982 em Leichlingen/Colonia, assim como em encontros com pesquisadores italianos nos anos que se seguiram.
Com a fundação do Instituto de Estudos da Cultura Musical do Mundo de Língua Portuguesa (ISMPS) em 1985, a atenção passou a ser dirigida à relações com desenvolvimentos em países e comunidades de diferentes regiões do globo marcados pelos portugueses nas suas relações com a Itália. A Novena da Glória foi analisada e considerada em estudos concernentes a "transplantes" musicais no Brasil no século XIX em projeto internacional do Conselho Internacional de Música, assim como em encontros na Itália e em países particularmente marcados pela presença italiana, em cursos e seminários. A obra foi mencionada no ciclo de cursos sobre Música no Encontro de Culturas - História da Música em Contextos Globais - realizado na Universidade de Colonia a partir de 1997 assim como em seminários sobre a música e a musicologia no Brasil.
Gioacchino Giannini e a tradição teórica e musical de Lucca ➢
Relações culturais euromediterrâneo-brasileiras sob a égide dos Bourbons ➢
Giannini e João Gomes de Araújo ➢
Giannini e Henrique Alves de Mesquita ➢
Giannini e Carlos S. Cavalier Darbilly ➢
Lucchesi no mundo e Estudos Puccinianos ➢
Este texto é extraido da publicação
Antonio Alexandre Bispo. Pedro II 200 Anos. Música em estudos euro-brasileiros do século XIX. Gummersbach: Akademie Brasil-Europa & Institut für Studien der Musikkultur des portugiesischen Sprachraumes e.V.
416 páginas. Ilustrações. (Série Anais Brasil-Europa de Ciências Culturais)
Impressão e distribuição: tredition. Ahrensberg, 225.
ISBN 978-3-384-68111-9
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