Dom Pedro II. Neg. von Braum. Clément & Cia. Paris. Therese Prinzessin von Bayern. Meine Reise in den brasilianischen Tropen. Berlin 1897

BRASIL-EUROPA

REFERENCIAL DE ANÁLISES CULTURAIS DE CONDUÇÃO MUSICOLÓGICA

EM CONTEXTOS, CONEXÕES, RELAÇÕES E PROCESSOS GLOBAIS


Ladainha cantada na igreja da Penha de José Pinto Tavares, músico militar e de igreja. Acervo A.A.Bispo

 
JOSÉ PINTO TAVARES


LADAINHAS  DE NOSSA SENHORA
- LADAINHA DA PENHA -






PROGRAMA

BICENTENÁRIO DE D. PEDRO II
1825-2025

Ladainha de José Pinto Tavares da tradição sacro-musical da igreja da Penha, São Paulo. José Pinto Tavares foi músico de banda, professor do Seminário Episcopal e regente da banda da confraria dos Remédios. Pesquisas de A.A. Bispo da década de 1960.

Antonio Alexandre Bispo


José Pinto Tavares foi um dos músicos e compositores de São Paulo do século XIX considerados em pesquisas musicológicas e culturais desenvolvidas desde a década de 1960 e que tiveram continuidade em âmbito internacional a partir de 1974.


José Pinto Tavares foi músico marcial, regente de banda, professor de piano, compositor de música ligeira e sacra de São Paulo em anos marcados por desenvolvimentos materiais, econômicos e urbanos que se seguiram à Guerra do Paraguai e na qual José Pinto Tavares atuou como regente de música de corpo de soldados que partiu de São Paulo. Era anunciado em jornais como professor de música marcial, ou seja de instrumentos de sopro para bandas, não só militares. A sua vida e atuação decorreu em época marcada por grandes transformações da cidade, melhorias, embelezamentos e intensificação da vida social e musical urbana, de criação de parques e jardins, de concertos ao ar livre, no largo do Palácio ou sobretudo no Jardim da Luz, onde bandas se apresentavam duas vezes por semana. 


Desenvolvimentos urbano-sociais de São Paulo sob João Teodoro Xavier (1828-1878)


José Pinto Tavares foi um música da época de São Paulo que se transformou sob a Presidência de João Teodoro Xavier (1828-1878). Melhorias de infraestrutura urbana e de embelezamentos marcaram a passagem de uma cidade que até passado recente tinha mantido características do já remoto passado colonial, iniciando-se uma época de progresso material, social e cultural urbano que a transformaria. Viveu os alvores de uma cidade que se tornava cosmopolita com a crescente vinda de imigrantes, com a intensificação de intercâmbios favorecida pela implantação da ferrovia e que foi acompanhada pela intensificação da vida cultural e musical, pela formação e atuação de orquestras em público, em teatros e bailes, pela prática doméstica da música, em particular do piano, pela impressão e comércio musical. 


São Paulo na época do pontificado de Pio IX: 1846-1878


Esse desenvolvimento econômico material e social, de uma cultura urbana de cidade que se dinamizava e se expandia com a instalação de suas primeiras indústrias e que era marcada pela vida estudantil de sua faculdade, teve como contraposição a reação eclesiástica perante a crescente secularização. O movimento restaurativo que marcou a história política, religiosa e cultural da Europa no século XIX e que teve o seu principal marco no Concílio Vaticano I foi explicitamente de combate a correntes remontastes ao Esclarecimento e anti-modernista. São Paulo, como região marcada por extraordinária expansão econômica e empreendedorismo, de desenvolvimento comercial e da vida cultural e musical secular, foi alvo da reação do clero, de intentos de retomada de controle da sociedade através da propaganda religiosa e da ação social e de amparo por religiosas, de reforma do clero, de re-instauração de costumes segundo normas eclesiásticas, da formação religiosa em família, um desenvolvimento criticado pela juventude estudantil da Faculdade de Direito como obscurantista.


Itú e Dom Antonio Joaquim de Melo (1791-1861)


Entre as principais instituições desses intentos do clero destacou-se o Seminário Episcopal. Foi fundado por Dom Antonio Joaquim de Melo , bispo que, nascido em Itú, principal centro de tendências religiosas restaurativas da Província, onde também celebrou a sua primeira missa, tornando-se um dos principais promotores do movimento entendido como reformador do catolicismo em São Paulo. Filho do capitão de exército, batizado na matriz de Nossa Senhora da Candelária, a sua formação foi não apenas marcada pela religiosidade de tradição carmelita de Itú como também pela sua formação militar. Acompanhou o pai a Minas Gerais, passando a sua infância em quartel. Abandonou a carreira militar em 1819, retornando a Itú, transferiu-se para São Paulo para completar a sua formação..


Ao lado de matérias na tradição das artes liberais, do trivium com gramática latina e retórica, estudou dogmática e doutrina moral, necessárias para a formação sacerdotal, assim como francês. Esse idioma surgia como necessário perante o significado do processo restaurativo na França com o retorno dos Bourbons na esfera religiosa e eclesiástica, o que marcou as suas ações. Foi sagrado sacerdote em 1814, celebrando a sua primeira missa em Itu. Em escola por ele fundada, dedicou-se ao ensino de jovens provindos de regiões rurais. Em Itú, atuou como confessor e pregador, tornando-se vigário em 1849. Em 1851 foi nomeado bispo da diocese de São Paulo, nomeação confirmada por breve papel de Pius IX. A sua entrada na Sé de São Paulo deu-se em cerimônia solene em 1851. 


O Seminário Episcopal de São Paulo


A edificação do Seminário iniciou-se em 1855, sendo concluída em 1860. Para a sua direção, solicitou a Pio IX o envio de Capuchinhos da Congregação Propaganda Fide. O Seminário oferecia não apenas ensino elementar, mas também aulas de Teologia Moral e Dogmática no intento de formar sacerdotes que agissem como multiplicadores do processo restaurativo,


Conhecido como ultra-conservador, marcado por zêlo religioso, severo reformador do clero, de costumes e da moral causou tensões entre os cônegos e fiéis, assim como em círculos de estudantes e aqueles mais progressistas da população. Já de início dedicou-se à reforma do clero com um regulamento de conduto para sacerdotes e aspirantes ao sacerdócio. Os Capuchinhos (OFMCap), religiosos da Ordem dos Frades Minoritas Capuchinhos (Ordo Fratrum Minorum Capucinorum) atuavam a serviço da Propaganda Fide, a congregação romana que, desde a sua fundação em 1622, tinha a incumbência de reformar e controlar as atividades missionárias em países extra-europeus, corrigindo e substituindo gradativamente a ação real garantida pelo Direito do Padroado Português.


Esses frades concentravam-se na pregação e cultivavam uma vida retirada em pequenas ermidas, em localidades mais afastadas de centros de cidades. A vinda dos religiosos trazidas pelo bispo deve ser assim considerada no contexto mais amplo, secular de processos de reforma e correção. Também em São Paulo estabeleceram-se em local afastado do centro, nas margens do núcleo urbano, no Seminário instalado no então relativamente ermo da Luz. 


A música no Seminário Episcopal - José Pinto Tavares


A consideração de José Pinto Tavares nos seus elos com o Seminário Episcopal de São Paulo traz à consciência situações ambivalentes e dúbias de músicos que, inseridos na vida religiosa e musical consuetudinária, passaram a vivenciar a política reformista da autoridade episcopal. Conhecido como professor de música marcial e como regente de coro e orquestra de novenas, em particular daquelas da Penha, o seu emprêgo no Seminário faz supor ter sido ele considerado adequado quanto a costumes e condução moral de vida, assim como pela sua religiosidade.


Como professor de harmonia, dedicou-se ao ensino musical mais amplo, de cunho elementar ou geral dos seminaristas. Marcou a formação daqueles que ali receberam instrução, mas que não seguiram o caminho sacerdotal, assim como também de futuros sacerdotes. Entre os seus alunos salientou-se José Gomes de Abreu (Zequinha de Abreu) (1880-1935), que posteriormente desistiu de prosseguir os estudos que o levariam ao sacerdócio. A consideração de suas composições, entre elas aquelas que alcançaram sucesso internacional, remete a atenção à formação em rudimentos e harmonia recebida com José Pinto Tavares.


Desenvolvimento dos estudos


José Pinto Tavares, em geral esquecido em publicações sobre a história da música e história cultural de São Paulo, era ainda lembrado na primeira metade da década de 1960 em círculos portugueses e luso-brasileiros que participavam de romarias e festas religiosas de Nossa Senhora da Penha, igreja e bairro marcado pela presença lusitana e de seus descendentes. As festas do Divino da Penha, com as suas novenas e expressões tradicionais, entre elas aquelas da ereção de um Império do Divino e a eleição de imperadores conhecido sobretudo dos Açores, destacavam-se entre as festividades religiosas mais concorridas das de São Paulo. Eram conhecidas pelo brilho da música sacra com acompanhamento orquestral, regidas no passado por músicos de destaque na vida musical de São Paulo como José Antonio de Almeida e, entre outros, José Pinto Tavares. 


Nelas entoava-se uma Ladainha de José Pinto Tavares para coro e orquestra, conhecida de memória por devotos e músicos e que surgia quase que como emblemática para a veneração de Nossa Senhora da Penha. Para a constituição de sua orquestra e coro concorriam músicos e cantores que participavam de execuções musicais em solenidades religiosas de igrejas e irmandades, de atos devocionais e procissões. Um dos organizadores desses conjuntos vocais e instrumentais para as festas da Penha era Edgard Arantes, cantor, regente e estudioso de tradições religiosas, professor de canto coral e de Folclore em conservatórios da capital. Dele obteve-se os manuscritos da Ladainha de José Pinto Tavares que motivou os estudos desenvolvidos no Centro de Pesquisas em Musicologia.


JJosé Pinto Tavares foi considerado nos estudos da prática musical na antiga Igreja dos Remédios em São Paulo, onde atuou como mestre de música da banda de música da Confraria de Nossa Senhora dos Remédios, sendo sucedido nessas funções por Verissimo A. Gloria. A antiga igreja dos Remédios, no passado próximo à cadeia e ao largo da forca, foi centro de uma veneração estreitamente relacionada com funções de  amparo espiritual, acompanhamento religioso e reabilitação daqueles acusados de infrações e delitos, sendo compreensível que nela atuassem músicos policiais como Joé Pinto Tavares e o seu sucessor Veríssimo Glória. Significativamente, entre os santos ali mais venerados salientava-se São Sebastião, o soldado mártir, guarda pretoriano, protetor de militares. As atividades de José Pinto Tavares  no Seminário e na Igreja dos Remédios trazem á consciência os elos entre a militância reformadora do clero e dos costumes e a esfera militar, assim como o papel neles desempenhado pela música.


José Pinto Tavares como mestre de banda na Guerra do Paraguai


No âmbito do curso Música na Evolução Urbana de São Paulo na Faculdade de Música do Instituto Musical de São Paulo, procedeu-se ao estudo dos acervos musicais e da história da Banda de Música da Polícia Militar, antiga Força Pública de São Paulo. Entre os estudantes, destacou-se a folclorista Laura Della Mônica, que registrou a participação de José Pinto Tavares como mestre de banda de música que acompanhou os acontecimentos bélicos da Guerra do Paraguai. A cooperação com Laura Della Mônica teria continuidade nos anos que se seguiram, levando a que participasse de trabalhos que viriam a ser realizados na Alemanha.


Estudos em âmbito internacional


A atenção a José Pinto Tavares no projeto brasileiro de estudos musicológicos desenvolvido a partir do Instituto de Musicologia da Universidade de Colonia explica-se pela atualidade do debate referente à música sacra nos anos pós-conciliares, intensificados pela passagem dos 450 anos de nascimento de G. P. da Palestrina em 1975. O programa brasileiro previu uma viagem a Roma para pesquisas na Biblioteca Apostólica Vaticana, realizada já em março de 1975.. A atenção no ano Palestrina foi dirigida não só ao século do Concílio de Trento, mas sim e sobretudo à continuidade de concepções referenciadas segundo Palestrina através dos séculos e, em particular, ao século XIX. 


Esse debate correspondeu ao interesse pela reconsideração crítica do século XIX na musicologia. Encontrava-se em andamento a preparação de uma publicação sobre a música na América Latina no século XIX, no qual participavam pesquisadores de vários países latino-americanos. Em 1976, os Dias da Música de Kassel (Kasseler Musiktage) tematizaram esse século e a necessidade de revisões de perspectivas e de análises de desenvolvimentos e suas consequências. 


O estudo do papel desempenhado por seminários episcopais ou de ordens, assim como colégios na formação de sacerdotes e de multiplicadores em época marcada por  intentos anti-modernistas do Concílio Vaticano I consistiu um dos principais objetivos do projeto elaborado no Brasil e que tinha como escopo contribuir ao desenvolvimento de uma musicologia orientada segundo processos culturais em contextos globais. Os seminários e colégios inseriram-se em processos retroativos de longa data do século da Restauração e Historicismo. Essas instituições tornaram-se principais centros de promoção dos intuitos eclesiásticos de reação a transformações da sociedade e do pensamento, um desenvolvimento que teria, no século xx, um marco decisivo com o Motu Proprio de Pius X (1903). 


José Pinto Tavares, professor de música marcial e ao mesmo tempo professor de música do Seminário Episcopal de São Paulo, relacionado assim tanto com a esfera militar como com o restauracionismo católico a exemplo do bispo D. Antonio Joaquim de Melo, serviu para trazer à consciência o significado de São Paulo para estudos do século XIX. Discutido em colóquios de musicológos e doutorandos, esse debate levou a tese defendida em 1979. Esses estudos motivaram, fundamentaram e possibilitaram a realização do I Simpósio Internacional Música Sacra e Cultura Brasileira em São Paulo, em 1981, quando então fundou-se a Sociedade Brasileira de Musicologia.


Com a fundação do Instituto de Estudos da Cultura Musical do Mundo de Língua Portuguesa (ISMPS) em 1985, representando a internacionalização do Centro de Pesquisas em Musicologia, José Pinto Tavares, exemplificando relações entre música marcial, sacra e secular no século XIX, passou a ser considerado em contextos da lusofonia. Em simpósio realizado em várias cidades da Alemanha em 1989, com a participação de vários pesquisadores de São Paulo, foram retomadas, com Laura Della Monica, as considerações sobre a participação de José Pinto Tavares como regente de batalhão dos Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai decorrentes das pesquisas da década de 1970.


José Pinto Tavares e suas ladainhas


Uma particular atenção merece o fato de José Pinto Tavares ter composto várias ladainhas. Entre elas, aquela de N. 9 cantada em novenas da Ordem Terceira do Carmo e que se tornou tradicional nas Novenas do Divino na Penha. O significado das ladainhas para os estudos culturais foi constatado em pesquisas realizadas no Brasil desde a década de 1960 e consideradas em aulas na Escola de Folclore do Museu de Artes e Técnicas Populares (Folclore) e das áreas de Etnomusicologia e História da Música do Instituto Musical de São Paulo. 


Decisiva para o desenvolvimento dos estudos de ladainhas no Brasil foi a observação e a participação na Novena da Purificação em  Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1972. A surpreendente e impressionante interação entre as partes coro-orquestrais com as respostas cantadas da comunidade levaram a reflexões concernentes às dimensões musicais e sociais das práticas responsorial e antifonal tratadas em cursos no Brasil e, a seguir, em cooperações internacionais na Europa. 


A Ladainha N° 9 de José Pinto Tavares adquire particular interesse por incluir entre as pautas com a melodia da ladainha anotações de textos entoados pelo sacerdote ou executados pelo coro e orquestra, o que correspondeu às observações feitas na prática tradicional em diferentes cidades mantenedoras de tradições no Brasil. Escrita para dois sopranos e baixo, com melodia em parte conduzida em terças paralelas, a ladainha apresenta características de práticas populares de canto.


D. Pedro II. Kaiser von Brasilien. Phot. Melsenbach Riffarth München. V. Braun Clément, Paris. Da obra: Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reisen on den Brasilianischen Tropen. Berlin D. Reimer (Erst Vohsen) 1897.

Este texto é extraido da publicação

Antonio Alexandre Bispo. Pedro II 200 Anos. Música em estudos euro-brasileiros do século XIX. Gummersbach: Akademie Brasil-Europa & Institut für Studien der Musikkultur des portugiesischen Sprachraumes e.V.
416 páginas. Ilustrações. (Série Anais Brasil-Europa de Ciências Culturais)
Impressão e distribuição: tredition. Ahrensberg, 225.


ISBN 978-3-384-68111-9


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Pedro II Kaiser von Brasilien. Phot. Melsenbach Riffarth München. V. Braun Clément, Paris. Da obra: Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reisen on den Brasilianischen Tropen. Berlin D. Reimer (Erst Vohsen) 1897.
Druck und Verteilung: Tredition. Ahrensberg