Dom Pedro II. Neg. von Braum. Clément & Cia. Paris. Therese Prinzessin von Bayern. Meine Reise in den brasilianischen Tropen. Berlin 1897

BRASIL-EUROPA

REFERENCIAL DE ANÁLISES CULTURAIS DE CONDUÇÃO MUSICOLÓGICA

EM CONTEXTOS, CONEXÕES, RELAÇÕES E PROCESSOS GLOBAIS


 
MAMEDE DE CAMPOS

1853 - 1886


LADAINHA DA PIEDADE

 OS GUARANYS EM LORENA





 PROGRAMA

BICENTENÁRIO DE D. PEDRO II
1825-2025


Dobrado Os Guaranis em Lorena por Mamede de Campos, compositor de Lorena. Parte de Flautim. As obras de Mamede de Campos foram pela primeira vez estudadas sob aspectos musicológicos na década de 1960. Acervo A.A.Bispo. Copyright
Club Muzical Recreativo Mamede de Campos.Acervo A.A.Bispo. Copyright
Ladainha de Noissa Senhora da Piedade de Mamede de Campos.Acervo A.A.Bispo. Copyright
Ladainha de Nossa Sra. da Piedade de Mamede de Campos.Acervo A.A.Bispo. Copyright
Ladainha da Piedade de Mamede de Campos. Acervo A.A.Bispo. Copyright

Antonio Alexandre Bispo


Em época na qual se recomemora o bicentenário de nascimento de Dom Pedro II (1825-1891), as atenções se voltam ao século XIX no Brasil. Torna-se assim oportuno recapitular alguns aspectos de trabalhos de pesquisas e estudos que vêm sendo desenvolvidos desde a década de 1960. Esses trabalhos tiveram continuidade em âmbito internacional a partir de 1974/75. Marcaram desenvolvimentos nos estudos culturais e musicológicos referentes ao Brasil na Europa. Foram tratados em colóquios, conferências, seminários e cursos, motivaram a realização de simpósios e congressos. Basearam-se em fontes levantadas no Brasil e foram conduzidos segundo orientação teórica elaborada em São Paulo e desenvolvida a seguir em cooperações em âmbito internacional. Nesses estudos foram considerados não só nomes e fatos de extraordinária relevância histórico-cultural, mas também de artistas e mestres menos conhecidos, esquecidos, provindos de meios sociais mais modestos, que receberam assim reconhecimento póstumo também na Europa. Um desses nomes é o de Mamede de Campos.


Esse procedimento foi resultado dos princípios teóricos que determinaram os estudos e que devem ser considerados quando se recapitulam alguns aspectos dos trabalhos realizados e aqueles que se encontram em andamento. 


Orientação teórica


Os estudos foram desde o seu início determinados por intuitos renovadores de modos de pensar e proceder nos estudos culturais em geral e em particular naqueles referentes à música. Reconheceu-se que divisões e categorizações de esferas e áreas, do erudito, do folclórico e do popular, o que definia objetos de estudos e métodos de áreas disciplinares, impediam a consideração adequada de expressões e práticas que não se enquadravam nessas categorias, designadas como semi-eruditas ou semi-populares. Bandas de música, militar e civil, música de salão, de dança, de uso doméstico, música para fins recreativos e muitas outras expressões e práticas da vida musical deixavam de ser consideradas. Reconheceu-se a necessidade de superação de uma forma de pensar em compartimentos, por assim dizer em gavetas, e para isso podia contribuir um direcionamento da atenção a processos que transpassam

 linhas delimitadoras ou fronteiras nos seus múltiplos aspectos. 


Essa abertura de mentes devia ser fomentada e difundida, sendo este o escopo do movimento que passou a ser designado como Nova Difusão. O Centro de Pesquisas em Musicologia criado nesse movimento devia promover estudos tanto de fontes como empíricos, nos quais a música deveria servir como princípio condutor de estudos de processos culturais. Para isso, reciprocamente, a própria pesquisa musicológica devia ser orientada segundo análises de processos.


Significado


A recapitulação de algumas dessas pesquisas é atual e necessária, uma vez que os estudos nas ciências culturais relacionam-se indissoluvelmente com aqueles da própria pesquisa, dos contextos e da sua história. Procurar ignorar caminhos que levaram a conhecimentos ou mesmo deturpá-los constitui um grave procedimento ético, depõe contra a idoneidade de pesquisadores e é prejudicial para o próprio desenvolvimento dos estudos. Esse problema pode ser constatado no caso de Mamede de Campos.

 

Mamede de Campos foi um dos músicos do vale do Paraíba em São Paulo considerados nos estudos culturais e musicológicos realizados desde meados da década de 1960 em São Paulo. Mamede de Campos marcou durante décadas a vida musical de Lorena. Atuou tanto em igrejas, compondo obras sacro-musicais, para solenidades e festividades religiosas, assim como também na vida cultural secular com a sua vasta produção de música para festas, retretas, concertos, apresentações teatrais, recepções e para fins doméstico e saraus. Dele foram encontradas em pesquisas muitas composições para banda, marchas, dobrados, polcas, mazurcas e outras estilizações de música de dança que marcaram não só a vida musical de Lorena, mas difundiram-se em outras cidades da região, o que foi constatado por cópias em acervos de bandas e igrejas. Fundou e dirigiu uma banda que desempenhou papel relevante na vida cultural e festiva de Lorena e em outras cidades da região. Participou da execução de obras musicais de maior envergadura  por ocasião de apresentações teatrais. O seu nome tornou-se conhecido pelas atividades do Club Musical Recreativo Mamede de Campos, perenizado na denominação da Banda Mamede de Campos.


A atualidade de uma recordação do Mamede de Campos resulta dos elos da história cultural de Lorena com a família imperial, o que se torna oportuno em ano no qual as atenções se voltam ao século XIX. Já Dom Pedro I deixou marcas na fisionomia e na memória da cidade com as palmeiras que ali plantou. A banda do Mamede passou a ser denominada de Princesa Imperial após a passagem da Princesa Isabel (1846- 1921) e do Conde d’Eu (1842-1922) por Lorena em 1878. Essa presença se repetiu. No dia 4 de novembro de 1884 por ali passaram a Princesa, o Conde d’Eu e seus filhos em viagem às províncias do sul do Brasil. Em 1888, um ano antes do fim do II Império, ali foram recebidos Dom Pedro II, a Princesa Isabel e o Conde d’Eu. Foram hospedados na casa do Conde Moreira Lima (1842-1926), onde realizou-se um sarau no qual participaram pianistas da sociedade local.


Desenvolvimento dos estudos


Mamede de Campos era na década de 1960 lembrado em São Paulo como destacado músico do passado de Lorena por músicos mais inseridos em círculos da tradição musical de banda e de irmandades religiosas de cidades do interior. Entre eles, destacava-se Andrelino Vieira, maestro e compositor proveniente de Sant’Ana do Parnaíba, estreitamente relacionado com músicos de cidades do interior de São Paulo e de Minas Gerais, com os quais mantinha intercâmbios. Como professor de Canto Orfeônico e diretor do Conservatório Musical Osvaldo Cruz, mantinha relações com músicos de São Luís do Paraítinga, cidade de Osvaldo Cruz, Taubaté, Lorena e outras cidades da região. 


Mamede de Campos era nome conhecido como autor de composições sacro-musicais por músicos atuantes em celebrações e festas de irmandades como Edgard Arantes Franco, também pesquisador e professor de Folclore em conservatórios. Edgard Arantes organizava, com outros músicos e devotos, viagens de músicos para a participação em solenidades religiosas por ocasião de festas e atos devocionais em cidades do interior e romarias, entre elas a de grandes festas de Nossa Senhora da Piedade em Lorena e de Nossa Senhora Aparecida em Aparecida. Uma de suas ladainhas era executada tradicionalmente em novenas de Nossa Senhora da Piedade na matriz de Lorena nos anos anteriores às mudanças decorrentes do Concílio Vaticano II. 


Composições de Mamede de Campos eram conhecidas por músicos provenientes de cidades do vale do Paraíba transferidos para São Paulo, entre eles sobretudo Benedito Moreira, violonista, professor e pesquisador, proveniente de tradicional família de músicos que desempenharam papel de liderança na vida musical de cidades como Cunha, Paraibuna e São Luís do Paraitinga. 


Cooperações 


Os trabalhos desenvolvidos em Lorena foram favorecidos por religiosos salesianos de Dom Bosco que ali desenvolviam intensas atividades religiosas e educativas, sobretudo no ensino de jovens de círculos sociais menos favorecidos e que, no seu centro instalado em histórica construção local conservavam partituras e cópias de música para banda e de música praticada em igrejas. 


O nome de Mamede de Campos era lembrado também por Estefânia Gomes de Araújo, professora do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, filha de João Gomes de Araújo (1846-1943), o mais importante e renomado músico do vale do Paraíba que, em São Paulo, esteve estreitamente relacionado com os religiosos de Dom Bosco. João Gomnes de Araújo tinha sido o compositor da Missa de São Benedito entoada na consagração da monumental igreja dedicada a S. Benedito em Lorena no dia 14 de fevereiro de 1884, obra que trouxe-lhe o prêmio de viagem de estudos á Europa. 


Esses estudos histórico-culturais de Lorena consideraram desenvolvimentos agrícolas, econômicos e urbanos de Lorena nas suas implicações sociais e culturais em cooperações com docentes e estudantes da Universidade de São Paulo. Com Antonio Luís Dias de Andrade (1948-2014), então estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) e participante do movimento Nova Difusão, a atenção foi dirigida às edificações históricas de Lorena no âmbito de trabalhos voltados ao patrimônio arquitetônico de cidades do vale do Paraíba. Considerou-se com especial atenção o solar de Joaquim José Moreira Lima (1807-1879), pai de José Moreira Lima (Jr.) (1842-1926), barão, visconde e conde Moreira Lima. 


A literatura histórica foi considerada sob a orientação de docentes dos departamentos de História e Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências (FFCL/USP), dirigindo-se a atenção sobretudo a questões de geografia urbana. Principal mentor desses estudos foi o geógrafo Aroldo Azevedo (1910-1974), proveniente de Lorena. 


Mamede de Campos foi considerado em cursos de História da Música promovidos pelo movimento Nova Difusão em 1970 e, em nível superior, na Faculdade de Música e Educação Musical/Artística do Instituto Musical de São Paulo.


Música em desenvolvimentos urbanos


Os estudos da música em contextos urbanos - e entre eles cidades do vale do Paraíba - desenvolvidos no Instituto Musical de São Paulo a partir de 1972 voltaram-se sobretudo a questões educativas em correspondência ao escopo dos cursos de Licenciatura. Os estudantes, entre eles aqueles provenientes de cidades da região, em parte já atuantes em escolas, deviam receber subsídios para uma condução sócio-culturalmente adequada de suas atividades educativas e participações em eventos escolares. Deviam atuar de forma refletida a partir do conhecimento e da análise de suas inserções em processos histórico-culturais e educativos locais e regionais. 


Neste sentido, considerou-se o papel exercido pelas atividades de Mamede de Campos e das instituições por ele marcadas sob o aspecto da formação de músicos e, sobretudo, da difusão cultural e de informação e instrução pública em Lorena.


Mamede de Campos foi considerado em trabalho de pesquisa de término de curso de Etnomusicologia por Barnabé Ávila, estudante proveniente de Lorena. O pesquisador, já ativo em escolas locais, além de estudos de fontes literárias, de jornais da época e de acervos locais, considerou tradições orais e informações obtidas da memória de pessoas de mais idade. Procedendo tanto historicamente a partir do estudo de fontes documentais como empiricamente através da observação e participação, constatou a permanência de composições de Mamede de Campos em repertórios e sobretudo de seu nome na memória coletiva, salientando o seu papel na consciência histórica de Lorena.


O pesquisador partiu de estudos da literatura disponível, entre eles da Resenha Histórica de Lorena de Faustino César, de 1928, do estudo Aspectos da Lorena Imperial de Aroldo Azevedo de 1954 e de outros textos desse autor de 1963, assim como da obra De Gens Lorenensis, de Gama Rodrigues, de 1956. Realizou entrevistas com músicos locais, entre eles Vinino de Morais e a a filha do compositor João Evangelista (1889-1970), antigo regente da corporação criada por Mamede de Campos. O pesquisador consultou livro de atas do antigo Conservatório Musical de Lorena, coleção de dados sobre Lorena de Faustina del Mônaco e da biografia de João Evangelista, anotada por Olga Jannuzzelli.


Foco das atenções: a década de 1870


O pesquisador concentrou-se sobretudo no papel desempenhado por Mamede de Campos no movimento cultural de Lorena em fins da década de 1870 e início de 1880. Considerou, entre outras fontes, dados obtidos em impressos pelas duas tipografias então existentes, a da Gazeta de Lorena, de propriedade de Jerônimo de Lorena e Alexandre Riedel, e a Himalaia, pertencente a Pedro Marçal da Cunha. Consultou, entre outras publicações, o Almanaque de Lorena, de 1882, publicação organizada e editada pelos irmãos Olympio Catão e Jerônimo Lorena. 


A partir de dados assim obtidos, tratou do contexto sócio-cultural em que se inseriu Mamede de Campos em Lorena. A intensidade da vida cultural de Lorena não era recente, tendo sido sempre marcada por elos partidários. Já em 1857 a Sociedade Recreio Familiar Lorenense realizava saraus, sendo presidida por Moreira Lima, de orientação liberal. Em 1869, atividades culturais eram promovidas pela Terpsícore Democrata, vinculada aos conservadores. Na década de 1870, Lorena contava com três professores de piano e canto, dois de música vocal e instrumental e duas bandas, a Orfelina Lorenense, dirigida por Rodolfo José Lorena e a Princesa Imperial, dirigida por Mamede de Campos. Uma outra banda seria fundada em 1884 por Marciano Guarany. No teatro de Lorena, construído às expensas particulares, realizavam-se apresentações dramáticas e recitais de canto, nele apresentando-se cantoras de renome internacional. Em 1881 fundou-se o Clube Polimática e, em fins do século, o Clube Literário e Recreativo Lorenense.


No referente às expressões tradicionais lúdicas, o pesquisador salientou o significado das festas do Divino em Lorena, com cavalhadas na década de 1860, o que correspondia ao significado dessas tradições de Pentecostes em todo o vale do Paraíba. 

 

Bandas de música nos seus elos políticos


O quadro assim traçado permitiu considerações sob a inserção partidária e a orientação política da banda do Mamede nas suas implicações quanto a repertórios e sua atuação na vida de Lorena. A prática de banda em Lorena deve ser considerada na pesquisa de orientação sócio-cultural dirigida a processos nas suas inserções políticas.


Os anos que se seguiram à Guerra do Paraguai não foram isentos de tensões devido à ameaça de conflitos com a Argentina por questões de fronteiras. Foi nessa época marcada concomitantemente por euforia de vencedores, auto-consciência nacional e expectativas de novo conflito bélico que Mamede de Campos fundou no dia 4 de fevereiro de 1875 a banda que se tornou conhecida inicialmente como Banda do Mamede. Com essa banda, com doze componentes, Lorena passou a ter uma corporação concorrente  à Orfelina Lorenense, mais antiga. Filiadas a diferentes partidos polícos, a Orfelina Lorenense era favorável aos liberais, a segunda, a do Mamede. aos conservadores. Mamede de Campos e a sua banda devem ser assim considerados a partir de sua posição conservadora e do significado do conservadorismo político da cidade e região. 


O pesquisador considerou também ocasiões nas quais as tensões resultantes de rivalidade partidária foram superadas em atos de congraçamento e de ufanismo local.Este foi o caso da visita de Pedro Vicente de Azevedo (1843-1912), político nascido em Lorena, então Presidente da Província de Pernambuco, quando foi bem recebido tanto pelos liberais como pelos conservadores, realizando-se uma soirée musical. 


O papel desempenhado pela Princesa Imperial nos últimos anos da monarquia e inicio do regime instalado em 1889 foi objeto de considerações e discussões. A atenção foi dirigida aos sucessores de Mamede de Campos na vida musical e cultural de Lorena, assim como a permanência e mesmo idealização valorativa da sua memória no decorrer do século XX.


O pontificado de Leão XIII.  São Benedito em Lorena


Em 1884 foi consagrado o Santuário de São Benedito um acontecimento de alto significado histórico-cultural e religioso, singular pela sua grandeza e características. A intensidade da veneração de São Benedito em Lorena não pode deixar de ser considerada com atenção nos estudos culturais e musicológicos. São Benedito, venerado sobretudo por africanos e seus descendentes, remete a atenção ao contexto étnico- e sócio-cultural que deve ser considerado nos estudos de músicos de condições modestas.


Na pesquisa realizada em 1973, deu-se particular atenção ao registro de nomes de antigos compositores e cantores, tanto da igreja de São Benedito como e da igreja matriz, esta consagrada apenas em 1890. Vários dos membros do coro da matriz entraram na memória local, conhecidos pelos seus primeiros nomes: Teófilo, Joanita, Carlotinha e Fiúta, como registrados pelo pesquisador em carta de Eulália de Azevedo, de 4 de junho de 1886. Nesse ano o encerramento do mês de Maria foi grandioso, com missa cantada acompanhada por órgão. 


Repertório e obras sacro-musicais e profanas


Nas obras consultadas em acervos de diferentes cidades do vale do Paraíba, constatou-se a intensidade das atividades de Mamede de Campos como compositor e arranjador. As composições por ele adaptadas às condições locais revelam a recepção de obras de sucesso e editadas na Europa, assim como daquelas difundidas no Brasil em publicações como O Brasil Musical. Obras de grande envergadura, sobretudo de aberturas e árias de óperas italianas foram realizadas em reinstrumentações em Lorena. Entre elas, pode-se mencionar a Abertura de Guillaume Tell de G. Rossini (1792-1868), a sua última ópera, a partir de uma adaptação de Frédéric Berr (1794-1838).


 Do repertório do Club Musical Recreativo Mamede de Campos, considerarou-se com particular atenção uma Mazurka e vários dobrados e marchas, entre outros Os Guaranís em Lorena, o  Morenito, assim como o 3 de maio, este composto para a festa de Santa Cruz.


A tradição da Banda Princesa Imperial


Falecendo, em 1886, Mamede de Campos foi sucedido por vários outros mestres. Entre eles, considerou-se Israel Coppio (ca. 1883-1941), regente da Princesa Isabel durante muitos anos, sapateiro de profissão.. A banda exerceu intensas atividades na vida religiosa e civil lorenense, participando em festas da igreja e em procissões.


A qualidade adquirida pela banda  permitia que se apresentasse em concertos no teatro da cidade. Essas apresentações tiveram continuidade através de décadas, como à época do mestre João Ramos de Oliveira, quando a banda do Mamede continuava a acompanhar representações teatrais ou a tocar nos intervalos. João Ramos de Oliveira, conhecido como João Rosa, foi regente da banda durante oito anos. Seguiram-no maestros que entraram na história mais recente da música em Lorena como João Evangelista (1889-1970) e Moroni (1943-1966). 


A rivalidade entre as bandas de música em Lorena - como em outras cidades brasileiras - manteve-se também sob a República. Em Lorena registra-se também casos de atos violentos como aquele ocorrido entre a Banda do Mamede e a Banda União Operária pela passagem do século, levando inclusive a destruição de instrumentos. 


Ao redor de 1910, assumiu a direção da banda o maestro João Evangelista (1889-1970). Nascido em Lorena, iniciou o seu aprendizado musical no Grupo Escolar Gabriel Prestes. Foi aluno de Israel Coppio, tendo sido a ele encaminhado pela sua madrinha, Eulália, mãe de Arnolfo Azevedo (1868-1942). Israel Coppio integrou-o com aprendiz de pistão na banda e, a seguir, como executante de flauta,  flautim, clarineta, saxofone e requinta, tornando-se exímio executante desse instrumento. Também estudou violino e outros instrumentos de corda com o Pe. Luís Marsigaglia, assim como piano. De suas composições, o pesquisador considerou em particular o seu Hino a Nossa Senhora da Piedade. 


Século XX. Música Popular e Jazz na Mamede de Campos


Em 1924, João Evangelista organizou uma Jazz-Band dentro da própria Mamede de Campos. Nos anos de 1920, os instrumentistas da banda, sob a sua regência, tocavam no Cine-teatro Guarany, mantido pela firma J. Silva e Cia. Em 1928, Lorena possuia duas orquestras, uma da empresa cinematográfica Rio Branco, da firma Canettieri e Filhos, e outra aquela que mantinha o Cine Guarany. De 1944 a 1948, João Evangelista dirigiu a Banda de Música da Fábrica Presidente Vargas, em Piquete. Em 1951, fundou o Conservatório Musical de Lorena.


"Pequenos mestres" e a Educação Musical


As pesquisas assim desenvolvidas deviam ter continuidade sob o aspecto da polivalência em artes quando da substituição da Licenciatura em Educação Musical pela Educação Artística na Faculdade de Música do Instituto Musical de São Paulo. Mamede de Campos foi um dos muitos nomes lembrados na sessão dedicada à necessidade de se considerar o papel dos assim-chamados pequenos mestres em conferência no Primeiro Congresso Brasileiro de Educação Artística, realizado em 1974. 


Problemas do prosseguimento da pesquisa


Devido aos preparativos para a internacionalização dos estudos em cooperações a serem desenvolvidas na Europa, o prosseguimento das pesquisas em Lorena foram confiadas a G. Olivier Toni (1926-2017), músico com o qual o movimento Nova Difusão havia realizado eventos em conjunto em anos anteriores. G. Olivier Toni, porém, por sua vez, enviou em 1974 um de seus alunos, iniciante, despreparado para a condução de pesquisas à consulta de acervos da Banda Mamede de Campos. A realização e resultados dessa visita permaneceram obscuros. Essa faltas quanto a procedimentos explicam as interpretações errôneas que se constatam hoje em entrada sobre Mamede de Campos em enciclopédia na Internet.


Desenvolvimentos em âmbito internacional


No Instituto de Musicologia da Universidade de Colonia, Alemanha, Mamede de Campos foi lembrado sobretudo no contexto de estudos referentes à música sacra. Em ano no qual se celebrava os 450 anos de G. P. da Palestrina e no contexto da atualidade de questões referentes às mudanças litúrgico-musicais da época pós-conciliar, a atenção voltava-se à renovação de concepções e de visões históricas do movimento de restauração eclesiástica e da música sacra no século XIX. A oportunidade da data para o aprofundamento de estudos referentes à música sacra, então atuais, tinha sido reconhecida em São Paulo à época da elaboração do projeto musicológico.


Nesse projeto brasileiro voltado ao desenvolvimento de uma musicologia orientada segundo processos culturais em contextos globais, Mamede de Campos foi considerado como um exemplo daqueles músicos marcados pela tradição coro-orquestral e de banda que atuaram em época marcada pela a intensificação de tendências restaurativas do culto e da sociedade do anti-modernismo da época do pontificado de Pio IX (1792-1878), cujo marco foi o Concílio Vaticano I em 1869/1870 e, a seguir, pelo pontificado de Leão XIII (1810-1903), o Papa que entrou na história pela sua atenção a problemas sociais, aos trabalhadores, cujos pronunciamentos tiveram profundas consequências para o Brasil à época da Abolição.


Mamede de Campos deve ser considerado nas suas inserções em desenvolvimentos eclesiásticos na sua decorrência histórica, não porém retrospectivamente a partir da fase marcada pelo Motu Proprio de 1903 de Pio X (1835 -1914). É significativo que a Banda Princesa Imperial se refira na sua denominação a uma princesa que, na sua intensa religiosidade foi marcada pelos ensinamentos da autoridade eclesiástica, em particular daquelas de Leão XIII, o que teria tido a sua expressão na Lei Áurea de 1888.


Mamede de Campos e ladainhas na pesquisa de música sacra 


Em colóquios de musicólogos e doutorandos realizados na Universidade de Colonia e que prepararam defesa de tese em 1979, Mamede de Campos foi considerado sobretudo a partir de uma Ladainha de Nossa Senhora em Fá maior de sua composição.


Deu-se continuidade, nesses colóquios, ao interesse pelo estudo de ladainhas iniciado no Brasil e tratado nas suas dimensões amplas sob o aspecto etnomusicológico e de de seu significado na história missionária.


A atenção ao significado das ladainhas nos estudos culturais no Brasil foi despertada por estudos conduzidos em 1970 em viagens de pesquisas a Minas Gerais e, em 1972, a cidades da Bahia e do Nordeste do Brasil. A ladainha tradicionalmente praticada em Santo Amaro da Purificação, de autor do século XIX, revelou aspectos de significado para estudos interdisciplinares, histórico-musicais e empíricos, não só da prática de execução musical e de estética de orientação cultural como também sócio-psicológicos.


A Ladainha em Fá maior de Mamede de Campos foi considerada no Brasil e na Europa como um representativo exemplo dos contrastes e interações resultantes da prática responsorial entre partes coro-orquestrais e aquelas da comunidade, da homofonia tonal e da modalidade das respostas na tradição do cantochão, recitadas ou salmodiadas pelo povo. Essa prática e seus contrastes e relações despertaram grande interesse nos estudos musicológicos e culturais no Brasil e na Europa, sendo apresentada e discutida em diversas ocasiões. 


Aspectos das análises


A ladainha de Mamede de Campos documenta de forma significativa os contrastes e interações entre o composto e a tradição. Como em outras ladainhas do século XIX analisadas, a composição de Mamede de Campos exemplifica o tratamento frequentemente brilhante e mesmo bombástico de partes coro-orquestrais, revelando uma linguagem musical marcada pela prática de banda de música. São essas partes aquelas que mais caracterizam obras e que são guardadas na memória dos devotos. 


A presença de uma linguagem de música de banda revela-se já na introdução da ladainha, em 4/4, Allegro non Troppo e em Forte que, com as suas tresquiálteras, impregna a composição e a torna de fácil memorização, o que explica ter sido tão difundida. No Pater Noster, em Andante e 3/4, inicialmente sem instrumentos, segue após 8 compassos um Allegro em 2/4, cuja condução melódica apresenta novamente figuras características de música de banda. 


Uma singularidade da obra de Mamede de Campos é o fato de ter composto quatro partes que, independentemente do texto, se alternam, o que revela o predomínio da música sobre o texto. As partes 1,5,9 e 13 da ladainha são tratadas pela mesma música em 2/4 e Allegro, caracterizada por alternância de notas acentuadas e valores curtos com pausas, assim como por movimentos escalares. 


As partes 2, 6, 10 e 14 são tratadas musicalmente em Allegro e 4/4, com figuras pontuadas. As partes 3,7,11 e 15, em Allegro e 3/4 lembram na sua condução melódica melodia popular ou do cancioneiro infantil. As partes 4, 8,12,16 e 17, em Allegro e 6/8 apresentam uma estruturação similar a outras partes na estruturação melódica, com a repetição de semi-frases em outras alturas nos dois primeiros compassos, seguindo-se figurações escalares, contrastantes no seu teor decisivo da primeira parte do período. Essa estruturação leva a que a ladainha seja marcada por uma alternância métrica de 2/4, 3/4 e 6/8, sendo porém todas em Allegro, o que confere à prática oracional um caráter marcado por vivacidade e alegria. Também o Regina Caeli revela o predomínio da concepção melódica sobre os sentidos do texto. Eesa oração é tratada musicalmente a partir de partes que se intercalam e contrastam, a 1 e 3 em Andante, a 2 e a 4 em Allegro. A ladainha termina com o Agnus Dei.


O significado das partes manuscritas levantadas em pesquisas reside sobretudo também no fato de Mamede de Campos ter anotado as respostas da assembléia. Estas se limitam à uma recitação entoada, ao ora pro nobis pronunciado ao redor de uma nota tenor e que, na prática da execução, leva às respostas arrastadas da assembléia que contrastam com a vivacidade das partes coro-orquestrais.


Como compositor de música de banda, Mamede de Campos foi lembrado em congresso internacional dedicado à música para instrumentos de sopro realizado na Áustria e na Suíça em 1985. Uma de suas composições comentadas foi Os Guaranys em Lorena.

D. Pedro II. Kaiser von Brasilien. Phot. Melsenbach Riffarth München. V. Braun Clément, Paris. Da obra: Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reisen on den Brasilianischen Tropen. Berlin D. Reimer (Erst Vohsen) 1897.

Este texto é extraido da publicação

Antonio Alexandre Bispo. Pedro II 200 Anos. Música em estudos euro-brasileiros do século XIX. Gummersbach: Akademie Brasil-Europa & Institut für Studien der Musikkultur des portugiesischen Sprachraumes e.V.
416 páginas. Ilustrações. (Série Anais Brasil-Europa de Ciências Culturais)
Impressão e distribuição: tredition. Ahrensberg, 225.


ISBN 978-3-384-68111-9


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Pedro II Kaiser von Brasilien. Phot. Melsenbach Riffarth München. V. Braun Clément, Paris. Da obra: Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reisen on den Brasilianischen Tropen. Berlin D. Reimer (Erst Vohsen) 1897.
Druck und Verteilung: Tredition. Ahrensberg