Dom Pedro II. Neg. von Braum. Clément & Cia. Paris. Therese Prinzessin von Bayern. Meine Reise in den brasilianischen Tropen. Berlin 1897

BRASIL-EUROPA

REFERENCIAL DE ANÁLISES CULTURAIS DE CONDUÇÃO MUSICOLÓGICA

EM CONTEXTOS, CONEXÕES, RELAÇÕES E PROCESSOS GLOBAIS


 
SAVERIO MERCADANTE

1795 - 1870


EXULTA Ó BRASIL

O SALUTARIS






 PROGRAMA

BICENTENÁRIO DE D. PEDRO II
1825-2025


O Salutares de Mercadante.  Obra de uso em igrejas do vale do Paraíuba na primeira metade do séculio XIX. Acervo A.A.Bispo. Copyright
Napoles, órgão da catedral. Foto A.A.Bispo
Ressurreição. Catedral de Nápoles. Foto A.A.Bispo
Teatro San Carlo, Nápoles. Foto A.A.Bispo
Teatro San Carlo, Nápoles. Foto A.A.Bispo
Teatro San Carlo, Nápoles. Foto A.A.Bispo
Teatro San Carlo, Nápoles

Antonio Alexandre Bispo


Saverio Mercadante - Giuseppe Saverio Raffaele Mercadante - (Altamura/Bari,1795- Nápoles 1870) foi um dos compositores considerados em São Paulo desde a década de 1960 em estudos voltados a temas ítalo-brasileiros. As pesquisas e trabalhos então realizados tiveram continuidade em nível internacional a partir de 1974/75. 


Em 1975 realizou-se uma primeira viagem de estudos a Nápoles e a outras cidades italianas. Os estudos foram desenvolvidos em pesquisas de arquivos na Europa e no Brasil, em encontros, colóquios e cursos com a cooperação de pesquisadores dedicados a estudos musicológicos italianos. Mercadante foi considerado em seminários e aulas em universidades alemãs e tratado no âmbito dos estudos de relações Itália/Brasil do Instituto de Estudos da Cultura Musical do Mundo de Língua Portuguesa (ISMPS) e da Sociedade Brasileira de Musicologia.


Necessária consideração de contextos sócio-políticos


Mercadante assume um particular significado em estudos voltados a processos culturais em contextos globais, em particular também sob o aspecto histórico-político e da  sociologia da música. A perspectiva social explica-se pelas origens familiares e pela formação de Mercadante. Como muitos outros músicos do passado, proveio de meio familiar de condições precárias, crescendo em pobreza e passando necessidades. Como muitos outros músicos, recebeu abrigo e formação em conservatório musical, sendo admitido no Conservatorio di San Sebastiano de Nápoles. Demonstrando precocemente talento, foi admitido em 1813 na classe de composição dirigida pelo diretor do Conservatório, Niccolò Antonio Zingarelli (1752-1837). Dedicou-se com afinco à composição desde cedo, criando obras que foram reconhecidas e divulgadas, entre elas o seu concerto para flauta em mi menor, até hoje executado. O término de seus estudos, em 1816, época marcada pela Restauração, traz à consciência que os anos de formação de Mercadante foram aqueles marcados pelas atribulações políticas e político-culturais em Nápoles.


Nascido em 1795, a sua época de infância foi aquela da República Parthenopeia proclamada por Napoleão Bonaparte, que em 1799 conquistou Nápoles, permanecendo apenas a Sicília sob o rei Ferdinando IV (1751-1825).  A sua juventude foi aquela na qual Napoleão colocou o seu irmão José (1768-1844) no trono, em 1806, que seria a seguir rei da Espanha. Em 1808, foi este substituído pelo seu cunhado, Joachim Murat (1767-1815). Os paralelos desses desenvolvimentos com aqueles que levaram que a família real portuguesa procurasse refúgio no Rio de Janeiro em 1808 não podem ser ignorados. 


Esses anos do jovem Mercadante foram marcados por iniciativas progressistas sob o aspecto social e civil segundo modelos franceses, ao mesmo tempo, porém, por um distanciamento relativamente a Napoleão e a uma temporária aproximação à Áustria. Quando da volta de Napoleão do exílio, agravaram-se as tensões entre a Áustria e Nápoles, o que levou à guerra entre Nápoles e a Áustria em 1815 e, com a derrota, à fuga de Murat à Córsica, sendo este a caminho preso e executado. Essas decorrências políticas à época da Restauração vêm sendo consideradas em estudos de processos em contextos globais em paralelos com os acontecimentos no Brasil à época do falecimento da rainha Dona Maria I (1777-1816), da subida ao trono de D. João VI (1767-1826) e do Reino Unido Brasil-Portugal e Algarves. 


A atenção tem sido dirigida sobretudo à restauração em Nápoles após o Congresso de Viena, no qual o rei Ferdinando I, no dia da festa da Imaculada Conceição, 8 de dezembro de 1816, retornou ao trono como rei de ambas as Sicilias que, agora unificadas, sucederam o antigo reino de Nápoles. Essa foi a época na qual Mercadante alcançou sucesso com a sua cantata L’unione delle belle arti para a visita do rei Carlos IV (1748-1819) da Espanha em 1818 e com a sua primeira ópera, de título L'apoteosi di Ercole (1819). 


A ascensão profissional de Mercadante em Nápoles deu-se à época da proclamação da Independência no Brasil. Foi compositor no Teatro San Carlo entre 1823 e 1825, sucedendo Gioacchino Rossini (1792-1868). Nos anos em que, com a morte de Dom João VI, Dom Pedro I (1798-1834) passou a ser seu sucessor no trono de Portugal, permanecendo porém por alguns anos no Brasil, época da composição do seu Novo Hino Constitucional, Mercadante esteve em Madrid, Cádiz e Lisboa, atuando na Península Ibérica entre 1827 e 1830. Na consideração desses anos de Mercadante, não se pode esquecer os estreitos e seculares elos políticos e político-culturais no Mediterrâneo entre as Duas Sicilias, Espanha e Portugal. 


Na Itália, Mercadante passou a dedicar-se mais intensamente à música sacra como mestre de capela da catedral de Novara. Escreveu grande número de obras para o culto, muitas missas e, sobretudo, Le sette ultime parole (Le tre ore d'Agonia) di Nostro Signore sulla croce (1838). Com essa obra, Mercadante revela-se como compositor que não pode deixar de ser considerado nos estudos de obras similares ou das "Três horas de agonia" de compositores no Brasil, o que tem sido objeto de atenção. 


Os estudos das relações de Mercadante com o Brasil à época do II Império dirigem a atenção sobretudo à atuação de Mercadante no Conservatório de Nápoles, cuja direção assumiu após a morte do seu professor Zingarelli em 1837. Músicos de diferentes países foram por ele formados. Mesmo após ter perdido a visão, continuou a compor, ditando obras a seus alunos. Em paralelos com o Brasil da década de 1840, os estudos têm considerado as tendências e empenhos políticos constitucionalistas das Duas Sicílias, o que levou em 1848 ao fim do regime absolutista com a Constituição. Essa foi a época que, no Brasil, foi marcada pela vinda de Dona Teresa Cristina, Imperatriz do Brasil (1822-1889), assim como do casamento da princesa Dona Januária (1822-1901) com o conde d’Aquila, Luigi Carlo Maria Giuseppe de Borbone- Duas Sicilias (1824-1897). 


Estudos de Mercadante no Brasil


O interesse por Mercadante foi despertado pela realização, no Rio de Janeiro, da obra Exulta, ó Brasil, hino a 3 vozes com coros e grande orquestra, dedicado a D. Pedro II por Mercadante em 1852, então diretor do Conservatório de Nápoles, cuja gravação foi amplamente divulgada no quarto volume da série Música na Corte Brasileira (Angel Álbum N° 3-CBX 413).


No meio ítalo-brasileiro de São Paulo, em particular em círculos de docentes e estudantes do Conservatório Musical Carlos Gomes, antiga Società Benedetto Marcelo, dirigido Armando Belardi (1898-1989), regente do Teatro Municipal e um dos principais promotores de obras de compositores italianos em São Paulo, Mercadante era lembrado como um dos grandes vultos da música italiana. Era visto como um dos principais representantes da escola napolitana, recordado como renomado diretor do Conservatório de Nápoles, instituição que se tornou modelar sob a sua gestão. Considerá-lo mais de perto significava valorizar a tradição italiana não só na ópera como também no ensino musical institucionalizado em conservatórios. 


Esse anelo era o de Armando Belardi que, tendo levado à cena obras de Mercadante, preocupava-se com o esquecimento em que caíra um compositor que alcançara renome internacional no século XIX. Mercadante e e o significado de suas obras na história da música do Brasil foi um dos temas tratados em cursos e encontros de história da música e em diálogos com professores como Edgard Arantes Franco, Gemma Rina Peracchi, Dino Pedini, Walter Gandolfi, Libero Vignoli, Sixto Mechetti, Lybia Piccardil, Rina Coli e Yolanda Giovanazzi.


Além de dados sumários transmitidos em livros de História da Música com as suas referências a obras que obtiveram grande projeção no passado, entre elas Os Huguenotes, pouco se conhecia sobre a trajetória de vida e a obra de Mercadante. Muito menos sabia-se a respeito de seus elos com o Brasil que teriam justificado o hino dedicado a D. Pedro II. Em diálogos com regentes e músicos italianos ou ítalo-brasileiros, procurou-se aprofundar conhecimentos, que para esse fim, possibilitaram contatos com músicos e pesquisadores na Itália. 


Em pesquisas de arquivos em São Paulo e em cidades do interior, desenvolvidas no âmbito do Centro de Pesquisas em Musicologia, encontraram-se cópias de composições de Mercadante. A mais antiga fonte levantada foi um O Salutaris cantado em igrejas do vale do Paraíba. Esses manuscritos. embora em péssimo estado de conservação, documentaram a difusão de obras de Mercadante em meados do século XIX no interior de São Paulo. Uma das questões levantadas disse respeito aos caminhos e circunstância da difusão dessas obras, pelo que tudo indica provenientes do Rio de Janeiro e vindas através do porto de Paraty e do caminho em direção ao interior. Em 1970, as bibliotecas da Escola de Música e a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro foram visitadas, consultando-se obras ali conservadas.


O debate sobre o Exulta ó Brasil dedicado a D. Pedro II


A razão pela qual Mercadante escreveu o hino Exulta ó Brasil em 1852 e o dedicou a D. Pedro II foi sempre questão levantada desde a gravação da obra no Brasil na década de 1960. Procurava-se explicar esse ato lembrando-se que a Imperatriz do Brasil Teresa Cristina era uma princesa napolitana e que havia outros elos familiares entre a família imperial e o reino das Duas Sicilias. Com o avanço dos estudos, essa explicação passou a ser questionada. Primeiramente, o hino foi dedicado a D. Pedro II e não à Imperatriz Teresa Cristina. Não se podia constatar nenhum acontecimento na família imperial em 1852, que justificasse o entusiasmo que se manifesta no Exulta ó Brasil. 


Os estudos referentes à posição política de Mercadante tinham revelado a sua orientação de cunho constitucionalista, diferente assim das posições conservadoras em geral atribuídas aos Bourbons. Mercadante foi simpatizante de G.Garibaldi  (1807-1882) e do movimento que levou posteriormente à unificação italiana e à fundação do Reino da Itália. Seria improvável que o Exulta ó Brasil se justificasse pelo fato da imperatriz do Brasil ser da família reinante do reino das Duas Sicílias ou de Dona. Januária, a "Princesa da Independência" ter casado com o conde d’Aquila.


Mercadante e Gonçalves Magalhães (1811-1882)


Essas questões foram mais esclarecidas considerando-se o fato de Mercadante ter escrito o hino com texto e com o incentivo de Domingos José Gonçalves Magalhães (1811-1882), Visconde de Araguaia, explicitamente designado como Comendador nos manuscritos. Em diálogos com pesquisadores de literatura do Instituto Português-Brasileiro de Colonia, dirigiu-se a atenção a esse vulto da história cultural do Brasil, médico, erudito, poeta e diplomata, considerado em geral nada menos como iniciador do Romantismo no Brasil. Neles, tomou-se consciência das dimensões de seu significado, pouco consideradas e mesmo injustamente desvalorizadas por críticos literários.  


Considerado sob critérios adequados, Gonçalves Magalhães surge como uma personalidade de grande significado para uma história cultural do Brasil em contextos globais. Foi não só poeta como pensador de largas visões. Como diplomata, atuou no reino das Duas Sicilias - e em outros países - e os seus méritos foram reconhecidos através de concessão da comenda mencionada nos manuscritos. Os elos entre Gonçalves Magalhães e Mercadante sugerem uma sintonia quanto a visões e posições relativamente a situações e desenvolvimentos políticos.


O Exulta ó Brasil parece poder ser explicado pelo entusiasmo causado pelo sucesso da intervenção brasileira na guerra da Argentina e que levou à derrubada do ditador Juan Manuel de Rosas (1793-1877) em 1852. O Império tinha-se colocado contra Rosas e apoiara o seu contraente Justo José de Urquiza (1801-1870). Essa intervenção teria sido vista por Mercadante, o admirador de G. Garibaldi (1807-1882), como expressão de um posicionamento e um empenho por uma política constitucional. O Exulta ó Brasil, embora possa hoje dar uma estranha e mesmo desagradável impressão laudatória de exagerada melodramaticidade, teria sido uma manifestação de entusiasmo pelo fim de uma ditadura e pela intervenção internacional brasileira a favor da desenvolvimentos progressistas. A admiração de Mercadante por Dom Pedro II pode ser considerada também como uma expressão de proximidade de posicionamentos políticos, de convicções constitucionais e tendências liberais.


Óperas de Mercadante no século XIX Brasil


De fundamental significado para os estudos referentes à recepção de obras de Mercadanteno Brasil foi o levantamento realizado por Ayres de Andrade das óperas levadas em cena no Rio de Janeiro entre 1808 e 1865. (Francisco Manuel da Silva e seu tempo II, 1808-1865:; Uma fase do passado musical do Rio de Janeiro à luz de novos documentos, 2 vols. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro 1967, 121 ss.). 


Segundo os seus registros, o período áureo da recepção de óperas de Mercadante foi a segunda metade da década de 1840 e a primeira da década de 1850. A primeira ópera mencionada é o Il giuramento (estreada em Milão em 1837), levada no Teatro São Pedro de Alcântara em 1845. Em 1848, apresentou-se no mesmo teatro Caritea regina di Spagna ossia La morte di Don Alfonso re di Portogallo, ópera que, estreada em Veneza em 1826, documenta os elos de Mercadante com a história dos países da Península Ibérica. Em 1849 foi encenada La Vestale (1840), também no São Pedro de Alcântara. O ano de 1850 adquire no contexto cultural luso-brasileiro um especial significado por ter-se representado nesse teatro Il Vascello di Gama (estreada no Teatro San Carlo em 1845). Seguiram-se, em 1853, Il Bravo/La veneziana (estreada em Milão em1837) e Leonora (Nápoles em 1844) no Provisório e, em 1856,  Oriazi e Curiazi (estreada no teatro San Carlo em 1846) no Lírico Fluminense. 


Desses registros pode-se constatar que, se Rossini estivera sobretudo em moda na década de 1820, Donizetti na de 1840, Mercadante a época principal para a história da recepção de suas obras no Rio de Janeiro foi aquela ao redor de 1850.


Diferenciações da "escola napolitana"


Os estudos desenvolvidos em cursos de História da Música no conservatório orientado pelo movimento Nova Difusão e seu Centro de Pesquisas em Musicologia em 1970/71, assim como na Faculdade de Música e Educação Musical do Instituto Musical de São Paulo a partir de 1972, trouxeram à consciência a necessidade de uma maior diferenciação da assim-chamada "escola napolitana" e sua influência em Portugal e no Brasil. Passou-se a considerar com mais atenção a complexa história do reino de Nápoles e Duas Sicilias, marcada que foi por mudanças de configurações estatais e de limites, pela presença austríaca, pela soberania dos Bourbons, pela presença francesa e pela república partenopéia, pelo período bonapartista e pela restauração, assim como, no século XIX, pelos conflitos que levaram à unificação itálica e ao Reino da Itália. 


Essas mudanças têm implicações para os estudos brasileiros, sendo também relevantes para análises musicológicas, que devem atentar a diferenças estilísticas nas suas relações com processos políticos e político-culturais. Não só a cidade de Nápoles e o seu Teatro San Carlo como centro musical de extraordinária importância, mas toda uma configuração de Estado do sul da Itália nas suas transformações, em particular da época do reino das Duas Sicilias deve ser necessariamente considerada em estudos de relações ítalo-brasileiras do II Império. Ao lado de Nápoles, deve-se considerar Palermo como centro musical, não se podendo esquecer que Mercadante nascera em Bari. 


Os processos culturais a serem considerados dizem respeito a todo o sul da Itália, uma configuração de Estado que terminaria com a capitulação de Francisco II (1836-1894) em 1861 após as vitórias lideradas por Giuseppe Garibaldi em 1860, a unificação italiana e a fundação do Reino da Itália. O estudo de compositores como Mercadante não podem partir de concepções e imagens atuais da Itália projetadas a essas conturbadas décadas da Península itálica, mas sim considerar os processos históricos na sua sequência no tempo. 


Essas transformações políticas tiveram consequências na vida cultural e no ensino, na programação de seus teatros, no ensino e na composição. Apesar de todos os elos internacionais nas suas trajetórias, os músicos se inseriram em diferentes correntes políticas, político-culturais e tendências eclesiásticas. Não considerar essas diferenças significa ignorar os complixos desenvolvimentos, também nas suas consequências para Portugal e para o Brasil.


Desenvolvimento dos estudos na Itália


Mercadante foi um dos compositores italianos considerados em projeto musicológico brasileiro desenvolvido na Europa a partir de 1974. Esse projeto tinha como objetivo contribuir a uma musicologia orientada segundo processos culturais em contextos globais a partir de fontes e estudos realizados anteriormente no Brasil. O projeto veio ao encontro de um acentuado interesse por estudos do século XIX, em particular também da música sacra, assim como da intensificação da pesquisa musicológica da Itália em cooperações internacionais. Encontrava-se em andamento um projeto dedicado ao século XIX em contextos extra-europeus, cujo volume dedicado à América Latina estava sendo preparado em Colonia. Em 1975 e 1976, anos marcados pelos 50 anos do término e da edição da Storia della Musica nel Brasile de Vincenzo Cernicchiaro (Milão 1926), realizaram-se os primeiros estudos de fontes e encontros em cidades italianas, entre elas em Nápoles. 


A atenção foi dirigida sobretudo às interações entre outros países da Europa e Portugal, em particular também a personalidades da vida musical que atuaram em Portugal e a portugueses que realizaram estudos e obtiveram sucesso em outros países europeus. A partir desses estudos, considerou-se também a difusão de obras no Brasil.


Tinha-se há muito consciência dos elos entre Nápoles e Portugal nas suas irradiações no Brasil no século XVIII, também e sobretudo sob o aspecto musical. Domenico Scarlatti (1685-1757) atuou em Portugal, vários compositores portugueses ali estudaram e muito se tinha escrito sobre a "escola napolitana" que determinou desenvolvimentos na arte do canto, na música para teclado, na ópera e na música sacra. O mais renomado compositor português marcado por esses elos foi Marcos Antonio da Fonseca Portugal (1762-1830), músico de projeção nos principais centros europeus que viveu, atuou e veio a falecer no Brasil. 


Reconsiderações do século XIX na musicologia


O fomento da pesquisa musical na Itália e a intensificação das relações teuto-italianas na pesquisa eram anelos de Karl-Gustav Fellerer (1902-1984). Concomitantemente, o interesse pelo século XIX, que se manifestava no projeto em andamento sobre as culturas musicais na América Latina do século XIX voltava-se sobretudo à música sacra. Em ano marcado pela passagem dos 450 anos de G. P. da Palestrina e por preocupações quanto a mudanças na prática sacro-musical decorrentes do Concílio Vaticano II. questionavam-se concepções e práticas de cunho restaurativo do século XIX. Esse interesse por questões de música sacra vinham ao encontro dos estudos referentes a Mercadante no projeto brasileiro, uma vez que grande parte das fontes levantadas em pesquisa eram procedentes de acervos de igrejas. 


Um evento de particular relevância nesses intuitos de reconsideração do século XIX foram os Kasseler Musiktage de 1976, quando a atenção foi dirigida a compositores e obras caídos em esquecimento, entre elas aquelas de Mercadante, de cuja produção apenas algumas obras permaneciam em repertórios. No ano marcado pelo centenário da Casa de Festivais de Bayreuth, tratando-se em encontros e seminários de questões concernentes à arte dramática do século XIX, salientou-se o até então pouco considerado significado de Mercadante na história da ópera e a importância de uma tradição marcada pelo bel-canto napolitano nos desenvolvimentos dramáticos relacionados Grande Ópera francesa. Mercadante passou a ser cada vez mais considerado  como um importante predecessor de Giuseppe Verdi (1813-1901) e, neste contexto, também do brasileiro Antonio Carlos Gomes (1836-1896).


Desenvolvimentos subsequentes


Os estudos de Mercadante nas suas relações com o Brasil tiveram continuidade em trabalhos conduzidos com a fundação da Sociedade Brasileira de Musicologia em 1981. O compositor foi lembrado em cursos e conferências dedicadas a temas histórico-musicais no I Fórum de Música Alemanha-Brasil realizado em cooperação com a Sociedade Brasileira de Musicologia na cidade de Leichlingen em 1982. Em maior abrangência, os estudos de Mercadante foram intensificados com a fundação do Instituto de Estudos da Cultura Musical no Mundo de Língua Portuguesa em 1985. 


Em 1986, ano dedicado a Carlos Gomes, Mercadante foi considerado em estudos euro-mediterrâneos desenvolvidos e.o. em Malta. Em 1987, foi considerado no âmbito do projeto Música na Vida do Homem (MLM) do ICM/UNESCO em estudos nos quais se discutiu a concepção de transplantes músico-culturais europeus no Brasil do século XIX. Mercadante foi tratado em cursos de Música no Encontro de Culturas e Musicologia em contextos globais nas universidades de Colonia e Bonn a partir de 1997. Em 2014 foram realizados estudos em Novara, cidade particularmente relevante para estudos da produção sacro-musical de Mercadante e, em 2016, novamente em Nápoles.



Alguns textos afins publicados na Revista Brasil-Europa e disponíveis na internet


Exulta, Oh Brasil! Saverio Mercadante (1795-1870)suas obras e seus discípulos no Brasil e sua aluna brasileira Heloísa Marechal (?-1860)  

Nápoles, Lucca e Brasil. Relações culturais euromediterrâneo-brasileiras sob a égide dos Bourbons  

Arcangelo Fiorito (1813? - 1887)  

Achille Arnaud "Napolitano" (1832-1894) e Gennaro Arnaud (?-1884)  

Gioacchino Giannini (1817-1860) e a tradição teórica e musical de Lucca  

D. Pedro II. Kaiser von Brasilien. Phot. Melsenbach Riffarth München. V. Braun Clément, Paris. Da obra: Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reisen on den Brasilianischen Tropen. Berlin D. Reimer (Erst Vohsen) 1897.

Este texto é extraido da publicação

Antonio Alexandre Bispo. Pedro II 200 Anos. Música em estudos euro-brasileiros do século XIX. Gummersbach: Akademie Brasil-Europa & Institut für Studien der Musikkultur des portugiesischen Sprachraumes e.V.
416 páginas. Ilustrações. (Série Anais Brasil-Europa de Ciências Culturais)
Impressão e distribuição: tredition. Ahrensberg, 225.


ISBN 978-3-384-68111-9


O livro pode ser adquirido aqui

Pedro II Kaiser von Brasilien. Phot. Melsenbach Riffarth München. V. Braun Clément, Paris. Da obra: Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reisen on den Brasilianischen Tropen. Berlin D. Reimer (Erst Vohsen) 1897.
Druck und Verteilung: Tredition. Ahrensberg