BRASIL-EUROPA
REFERENCIAL DE ANÁLISES CULTURAIS DE CONDUÇÃO MUSICOLÓGICA
EM CONTEXTOS, CONEXÕES, RELAÇÕES E PROCESSOS GLOBAIS
Antonio Alexandre Bispo
Rafael Coelho Machado, nascido em Praia, Ilha Terceira, Açores, e falecido no Rio de Janeiro, foi um músico, compositor, teórico e autor de dicionário musical considerado em estudos musicológicos desenvolvidos no Brasil desde a década de 1960.
Os estudos de Rafael Coelho Machado são de significado não só para o Brasil como para Portugal, - sobretudo para os Açores - assim como para a musicologia em geral.
Rafael Coelho Machado, obteve a sua primeira formação musical na prática musical em igrejas e de banda, tendo aprendido vários instrumentos de sopro. Teve aulas de piano, adquirindo conhecimentos do repertório pianístico de sua época, em particular também daquele de salão. Pretendendo ser sacerdote, transferiu-se de Ilha Terceira para Angra, ali realizando estudos clássicos e de música, adquirindo sólida formação humanística e a erudição que se revelaria no seu trabalho como lexicógrafo. Em 1835, em época conturbada politicamente, mudou-se para Lisboa, ali dando prosseguimento a seus estudos musicais.
Em 1842, transferiu-se para o Rio de Janeiro, ali se estabelecendo como professor de instrumentos, compositor, autor e editor, entre elas do Ramalhete das Damas. O extraordinário significado de Rafael Coelho Machado reside sobretudo no seu Dicionário Musical, publicado em 1842 e, em segunda edição em 1855, o primeiro dicionário de música em língua portuguesa.
Como ele próprio menciona na sua obra, realizou viagens a centros europeus com o objetivo de ampliar os seus conhecimentos musicais e constatar a situação da pesquisa musical e das tendências do pensamento. As entradas no seu Dicionário surgem como fontes importantes para a própria história da música, da teoria e da pesquisa musical européia.
"Devotado desde a minha infância ao estudo desta brilhante Arte, especialmente em, sua parte especulativa, achei-me algumas vezes em duvida acerca de muitos termos que encontrava neste ou naquele autor; isto e o desejo ardente que tenho de concorrer com minhas mui debeis forças para facilitar o adiantamento de uma Arte encantadora, forão poderosos estímulos para que me désse ao arduo trabalho de estudal-os e organisar um diccionario, que é sem duvida o primeiro que appare escripto em lingua portugueza." (op.cit. 2a. ed. 1855, VII)
O seu nome era conhecido no Brasil na década de 1960 como autor de compêndio musical amplamente divulgado, utilizado no ensino musical particular e em cursos de rudimentos em conservatórios. O seu ABC musical foi o ABC de gerações de musicistas. O seu Dicionário Musical podia ser encontrado em bibliotecas, também naquelas de alguns conservatórios.
Elias Lobo (1834-1901), um dos principais vultos da história da música sacra em São Paulo do século XIX, dedicou o seu compêndio de música, o seu próprio ABC a Rafael Coelho Machado, compositor que conhecera e com quem possivelmente estudara na sua presença no Rio de Janeiro.
Como autor do primeiro dicionário de música escrito e publicado no Brasil, o seu significado para os estudos musicológicos foi reconhecido por historiadores da música, pesquisadores e estudantes dedicados à renovação de perspectivas nos estudos culturais e musicais e que levou à fundação do Centro de Pesquisas em Musicologia do movimento Nova Difusão, formalizado como sociedade em 1968.
O levantamento bibliográfico de interesse musicológico, de léxicos, enciclopédias e periódicos, trouxe à consciência a importância de Rafael Coelho Machado para os estudos referentes à música em português. A sua pessoa, vida e obra chamaram a atenção sobretudo de pesquisadores luso-brasileiros, empenhados no estudo e valorização de músicos de Portugal e das ilhas na história cultural do Brasil. A sua consideração foi sempre marcada pela orientação do movimento Nova Difusão, que propugnando o direcionamento da atenção a processos e a difusão de modos de pensar, ver e proceder segundo perspectivas não delimitadas por esferas categorizadas do erudito e do popular, por fronteiras nacionais e continentais, pôde despertar a consciência para o significado do músico açoriano e de sua obra em contextos globais.
O papel que Rafael Coelho Machado desempenhou com os seus escritos e como editor do Ramalhete das Damas, assim como as suas muitas composições para processos de difusão foi tum fator que contribuiu ao interesse nos estudos de processos culturais nos estudos musicológicos. Rafael Coelho Machado foi não só autor de obras teóricas como o dicionário e um breve tratado de harmonia, mas também de obras sacras e seculares, de composições para uso doméstico e de salão.
No seu significado para os estudos teóricos no Brasil, o Dicionário de Rafael Coelho Machado foi tratado em cursos de História da Música orientados pela Nova Difusão e, em nível superior, na Faculdade de Música e Educação Musical do Instituto Musical de São Paulo a partir de 1972. A atenção foi aqui dirigida às fontes utilizadas por Rafael Coelho Machado evidenciadas nos ítens por ele tratados, que indicavam o seu conhecimento da literatura e de personalidades da vida musical e dos estudos musicais na Europa, assim como à divulgação de conhecimentos e de correntes de pensamento no Brasil nas suas dimensões educativas. O Dicionário tornou-se ponto de partida para a consideração de outras obras de cunho lexicográfico ou enciclopédico, entre elas a de Isaac Newton, estudada a partir de encontros realizados na Bahia e em Alagoas em 1972.
Em 1973, em viagem de contatos e estudos ao sul do Brasil, constatou-se a difusão do Dicionário em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul em meados do século XIX, regiões marcadas culturalmente por acentuada presença açoriana. Entre as obras encontradas em acervos, constatou-se a larga difusão do Diccionario Musical na sua segunda edição de 1855.
Rafael Coelho Machado foi tratado em Portugal no primeiro ciclo de estudos culturais e musicológicos luso-brasileiros promovido pelo Instituto Musical de São Paulo em 1974. Nos encontros, salientou-se que o seu Dicionário devia ser também considerado como importante publicação para os estudos musicológicos em Portugal.
Por ter sido escrito por um açoriano, foi considerado com especial atenção por musicólogos portugueses que então realizavam trabalhos no Instituto de Musicologia da Universidade de Colonia, entre eles o açoriano Armindo Borges (1933-2022), também nascido na Ilha Terceira, co-fundador do Instituto de Estudos da Cultura Musical do Mundo de Língua Portuguesa (ISMPS) que, em 1985, representou a atualização em âmbito internacional do Centro de Pesquisas em Musicologia.
Na Alemanha, os estudos realizados no Brasil puderam contribuir ao levantamento da literatura no âmbito de projeto dedicado às culturas musicais da América Latina no século XIX então em andamento.
Os estudos desenvolvidos no Brasil vinham ao encontro do interesse pela música sacra em círculos musicológicos da Alemanha em época marcada por mudanças quanto a concepções e práticas decorrentes do Concílio Vaticano II. Composições de Rafael Coelho Machado passaram a ser consideradas sob o aspecto de suas inserções na tradição coro-orquestral e suas relações com tendências restaurativas no âmbito da música sacra. O estudo de obras e de concepções sacro-musicais de Rafael Coelho Machado foi desenvolvido em comparações com aquelas de Elias Álvares Lobo. Foi um representante de um estilo mixto, nem do estilo antigo nem moderno, o que revelava o seu significado para estudos de posições intermediárias e interações.
O significado de Rafael Coelho Machado na lexicografia musical e no estudo de periódicos e revistas de música foi discutido com Heinrich Hüschen (1915-1983) em 1975/6, quando esse pesquisador, então diretor do Instituto de Musicologia de Colonia, dirigia um seminário sobre órgãos periódicos referentes à música e sua pesquisa. Nele foram consideradas também publicações pouco conhecidas ou caídas em esquecimento, assim como periódicos e revistas do século XIX com textos de interesse histórico-musical.
Pela diversidade e amplidão de seus interesses e atividades, Rafael Coelho Machado contribuiu à tomada de consciência de que o estudo de fontes e em particular de periódicos musicais deve ser orientado segundo perspectivas dos estudos culturais. Essas publicações do passado não devem ser consideradas apenas como fontes de informações e dados, mas elas próprias como objeto de estudos. Por essas razões e pelo fato de ter o músico e erudito açoriano vivido em Portugal, no Brasil e ter realizado viagens de estudos à Europa, a sua consideração no seminário veio ao encontro do projeto brasileiro de desenvolvimento de uma pesquisa musical em contextos globais.
Rafael Coelho Machado foi lembrado em diálogos com pesquisadores das Jornadas Musicais de Kassel (Kasseler Musiktage), em 1976, quando discutiu-se a problemática desse século na pesquisa. Músicos citados por Rafael Coelho Machado no seu dicionário, de renome na sua época como pianistas e influentes personalidades de vida musical européia, faziam parte do rol daqueles caídos em esquecimento. Para estudos de difusão e recepção musical e de concepções e visões, em particular em regiões extra-européias, tornava-se necessário redescobrir essas personalidades esquecidas do século XIX.
O próprio Rafael Coelho Machado cita as suas principais fontes:
"Não me era dado que só com os meus recursos eu pudesse produzir este trabalho; vi-me forçao por isto a recorrer demasiadas vezes a muitos autores para ter perfeito conhecimento dos termos que eu queria significar; os principaes e de que muitas vezes me servi for∫ao: Solano, Reicha, J.J. Rousseau, Baillot, H. Bertou, Chlandi, Fétis, Herz e outros que vão citados no decurso da obras; com o soccorro delles é que tenho formado este diccionario, os quais em muitos lugares sigo pontualmente, copiando alguns artigos de muita instrucção, tanto aos executores como compositores (…)" (op.cit. 2a. ed. 1855, VII-VIII)
No âmbito do seminário no Instituto de Musicologia de Colonia foram consideradas várias de suas informações. Uma das entradas particularmente discutida foi a referente ao termo Organologia, surpreendente sob vários aspectos. Diferentemente do emprego do termo no sentido de área de estudos de instrumentos, Rafael Coelho Machado o trata sob o aspecto biológico. Na sua erudição, documenta recepção de teoria do médico Franz Joseph Gallereferente à diferença entre o verdadeiro músico e aquele que é apenas executante, o que poderia ser constatado fisionomicamente. Organologia diria respeito a órgãos do cérebro que determinariam características e aptidões, constatáveis visualmente em formações do crâneo.
"Organologia. Estudo das faculdades da intelligencia sobre o crâneo. Eis aqui, segundo Gall, a descrição da apparência exterior do órgão da música no homem. Para fazer observações sobre este orgão (diz ele) é preciso guardar-se bem de confundir com os verdadeiros musicos as pessoas que pela prática teem adquerido uma grande facilidade de execução. Muitas vezes teem-se-me dito que eu devo achar em certas pessoas o órgão da música muito desenvolvido, e eu só encontro execução pela prática; semelhantes artistas trahem-se mesmo pelo genero de seu jogo que é antes obra dos seus dedos que de seu espirito; sua phyisionomia não exprime de maneira alguma este abandono, esta doce emoção que penetra a alma inteira do verdadeiro musico.
Até aqui tenho visto o órgão do sentido das relações muito desenvolvido em todos os músicos criadores em sua arte; elle apresenta duas fórmas particulares, ou bem o angulo exterior da fronte, colocado immediatamente acima do angulo externo do olho se dilata consideravelmente para as fontes, de maneira que, neste caso, as partes lateraes da testa invadem o angulo externo do olho; então toda a região frontal acima deste angulo é, até a metade da altura da fronte, consideravelmente curvada; ou bem se descobre immediatamente acima do angulo externo do olho uma prominencia em fórma pyramidal cuja base é apoiada sobre o olho e a ponta se estende sobre a borda exterior-anterior da fronte até a metade de sua altura.
Daqui acontece que os músicos tem a parte inferior da testa ou muito larga ou muito cerrada. Muitas vezes as tetas dos músicos nos parecem consideravelmente cheias acima do angulo externo do olho: Mozart (pai e filho), Miguel Haydn, Paer, Dussec, Marchesi, Daleyrae, Delavigne, Zumsteeg e Crescentini, servem de exemplo á primeira formação; Beethoven, Lafont, Neukomm, Joseph Haydn, J.J. Rousseau, Gretry e Gluck á da segunda.
Nenhuma idéa tenho ainda da differença de talento que resulta destas duas conformações; entretanto é de presumir que um músico, instruído ao mesmo tempo em organologia, a descobriria. O que ha de certo é que uma ou outra encontra-se constantemente em todas as pessoas dotadas de um grande genio musical.
Em todos os exames que tenho cuidadosamente feito, observo o desenvolvimento da parte cerebral indicada de tal sorte saliente que poder-se-hia ordenar todos os bustos examinados em uma linha, e os observadores os mais medíocres não deixarião de convencer-se que é esta a marca constante e característica do genio musical". (Diccionario Musical, Rio de Janeiro, 2° ed. 1855, 148-149)
O teórico açoriano oferece nas suas entradas várias indicações de interesse para estudos do pensamento musical no século XIX. Entre os nomes mencionados, considerou-se em particular Henri Herz, pianista austríaco-francês nascido em Viena, professor de piano, compositor e fabricante de pianos, cujas composições foram amplamente difundidas no Brasil. Pela sua vida e obra, assim como pelas suas viagens em vários continentes, também em países latino-americanos (Mes voyages en Amérique, Paris 1866) Herz adquire significado para estudos histórico-musicais em contextos transnacionais.
Rafael Coelho Machado foi considerado em estudos conduzidos conjuntamente com o seu conterrâneo Armindo Borges no âmbito dos trabalhos do Instituto de Estudos da Cultura Musical do Mundo de Língua Portuguesa a partir de 1985. Foi lembrado na abertura do I Congresso Brasileiro de Musicologia em 1987 e suas palavras impressas nos seus anais. Rafael Coelho Machado distinguiu-se como teórico pelo seu interesse especial pelo que considerava como a parte especulativa dos estudos musicais.
"Especulativo, A, adj. theoretico, não pratico; applica-se ao estudo ou indagação teorica da Musica, ou ao professor que inquire e examina miudamente tudo o que é relativo à sua arte. Chama-se especulativa a parte da Musica que se occupa em a averiguação curiosa das causas e propriedades dos sons, e considera a natureza e perfeição das consonancias e dissonancias, e dos seus admiraveis effeitos; é a parte que, segundo o parecer de todos os auctores, rigorosamente deve chamar-se sciencia." (op. cit. 61)
Musica, s.f. (da palavra musa), sciencia physico-mathematica que trata dos sons e das consonancias e nos ensina a exprimir as varias sensações de nossa alma mediante o som: e chama-se physico-mathematica por participar o seu objeto da razão do sensivel, propria do physico e da razão da quantidade, propria da mathematica./ A musica divide-se em theorica ou especulativa, e em pratica ou executiva; a primeira trata, em geral, de tudo que pertence à musica, e a segunda ensina a conhecer todos os caracteres musicaes, suas denominações, valores, e finalmente, tudo o que pertence à execução; por isso uma chama-se sciencia e a outra arte, e ainda esta se denomina liberal, por ser do numero daquellas em que não é só sufficiente para a sua pratica uma simples destreza manual, mas tambem engenho. (op.cit. 124-125)
Desenvolvimentos subsequentes
Rafael Coelho Machado foi estudado em comparação com teóricos da ilha da Madeira na Biblioteca de Funchal em1989. Foi objeto de estudos em cursos de Música no Encontro de Culturas na Universidade de Colonia a partir de 1987, no Congresso Internacional Música e Visões em 1999, no simpósio internacional Dimensões Européias da Música de Portugal por ocasião da celebração do Porto como Capital Européia da Música em 2002, assim como de História da Música em contextos globais no século XIX na Universidade de Bonn em 2003. Foi objeto de estudos nos Açores em ciclo promovido pela Academia Brasil-Europa em 2018, cujos relatos foram publicados na Revista Brasil-Europa.
Este texto é extraido da publicação
Antonio Alexandre Bispo. Pedro II 200 Anos. Música em estudos euro-brasileiros do século XIX. Gummersbach: Akademie Brasil-Europa & Institut für Studien der Musikkultur des portugiesischen Sprachraumes e.V.
416 páginas. Ilustrações. (Série Anais Brasil-Europa de Ciências Culturais)
Impressão e distribuição: tredition. Ahrensberg, 225.
ISBN 978-3-384-68111-9
O livro pode ser adquirido aqui